terça-feira, 7 de outubro de 2008

UM FATO CIENTÍFICOEnquanto a luz ocre da manhã escorria pela janela, Anna deu uma lida nas novas páginas do roteiro. Ficou acordada a noite toda revisando e tinha bolado um título perfeito: Tripolar. A reescrita melhorou enormemente o texto, mas ela ainda nãosabia se o que tinha escrito era realmente bom.Os três personagens foram renomeados: a mulher era Nina, os dois homens eram Dan e Mike.
Depois de ter lutado uma eternidade com o diálogo - e decidir às três da manhã que seus personagens falavam como se tivessem saído de um romance como aqueles Julia e Sabrina- Anna fmalmente preferiu escrever três monólogos que podiam ser intercalados, em que os personagens falavam diretamente para a câmera.A família de Dan havia ganhado recentemente uma montanha de dinheiro no mercado de ações; Mike vinha de uma família da elite aristocrática de Boston. Para Nina, Annadecidiu se concentrar em quem era e no que queria, em vez de em sua formação familiar. Numa tradição gatsbyana clássica, aquelas esperanças e sonhos entraram em conflito direto: o desejo de ter uma grande família ou uma grande carreira, uma vida simples ou um monte de dinheiro, viver uma longa vida, mas que envolvesse assumir riscos físicos e assim por diante.Os três monólogos também podiam ser usados como falas em off para o filme que deveriam rodar."Provavelmente é um saco", pensou Anna quando se levantou. Hora de encarar a Sam. Ela mandou uma cópia para Sam de manhã cedo; elas concordaram em se reunir no pátio às onze para conversar sobre o roteiro.Quando Anna chegou no pátio ao lado da sala de jantar, Sam já estava na mesa ao sol, bebendo uma xícara fumegante do que ela disse ser chá Curativo Flora BIJA. Ela usava uma camiseta stretch Pucci num turbilhão de cores primárias e jeans Seven. Sua maquiagem estava perfeita como sempre, e era óbvio que Sam tinha feito escova no cabelo pela manhã no salão do spa.Um garçom apareceu quase imediatamente. Anna pediu uma limonada enquanto Sam dizia que Susan tinha ido a algum lugar com Cammie e que Dee estava fazendo umaaula de ioga.- Parker já chegou - disse Sam, indicando o bar ao ar livre. Anna o viu ali com uma mulher de meia-idade bem conservada que usava um hibisco rosa atrás de uma orelha. A cor rosa-shocking combinava com o suéter felpudo, tão pequeno que fazia com que os peitos dela parecessem armas letais.
- Que pena que não podemos colocar isso no filme - disse Sam enquanto a mulher mais velha se aproximava de Parker com um desejo mal disfarçado nos olhos. - AChick é um clássico: criada no Simi Valley... casada com um magnata da indústria da TV... chegou até esse status na maior mordomia.Anna olhou para seu roteiro - estava em cima da mesa, ao lado da xícara de chá de Sam. Sam falava de tudo, menos dele. Não era um bom sinal.Anna bateu o dedo na capa.- Você detestou.Sam sorriu por trás dos óculos de aviador Gucci.- Você está nervosa! Não pensei que um dia te veria nervosa.- Bom, aproveite. - Anna cruzou os braços. - E aí?- Tá legal, tá legal. O que você escreveu é bom.Anna se espantou com o fato de o elogio ter agradado tanto.-É mesmo?- Não é ótimo - alertou Sam. - Vamos fazer umas mudanças de última hora nos diálogos antes de rodar, é laro. Mas já dei os monólogos de Parker e Dan para quetrabalhem nele, então isso diz alguma coisa. Está vendo o ara falando com Monty no bar? Com o queixo quadrado e abelo curtinho? É Jamie Cresswell. Acho que os ancestrais dele vieram no Mayflower ou coisa assim.- Como sabe disso?- Porque ele me disse hoje de manhã quando comíamos omeletes de clara de ovo. Ele nunca atuou em nada, mas tem uma banda de rock. Eu disse as palavras mágicas... Jackson Sharpe... e depois, para ele aceitar, disse que meu pai estáprocurando por um grupo sem contrato para fazer uma participação pequena no novo filme dele. De repente ele ficou todo animadinho para interpretar o Mike.- Éverdade? - perguntou Anna. - Sobre seu pai estar procurando uma banda desconhecida?- Francamente. - Sam agitou a mão, rejeitando a idéia. - Meu pai não lida com esse tipo de detalhe. Eu inventei tudo, mas foi por uma boa causa. Então vou trabalhar comos atores hoje à tarde e vamos rodar à noite com as deixas em cartões, cortesia de Monty e um pincel atômico. Vai ser moleza cortar na ilha de edição. Obrigada por facilitar nossa vida.
Anna se sentia ótima. Quem teria previsto que ela se tornaria roteirista? Os professores dela sempre disseram que tinha talento. Ela se lembrava de um professor de inglês particularmente bom no ensino fundamental que insistia com Anna para que ela "se soltasse" quando escrevesse. Bom, talvez ela finalmente tenha aprendido a fazer exatamente isso.- Quem vai fazer a Nina? - perguntou Anna.- Que tal... você? - sugeriu Sam.- Definitivamente não.- Eu tinha que arriscar. Eu adoraria que Susan fizesse, então.- O risco é maior ainda - disse Anna. - Ela nem deixou que tirassem uma foto dela para o livro do ano do Trinity.- Então vai ter que ser a Dee - alertou Sam. - A não ser que você mude de idéia sobre a Cammie.- Não. - Anna foi enfática. - A Cammie, não. Qualquer uma, menos a Cammie.- Por falar nisso, tenho uma confissão a fazer. Eu falei com a Cammie e a Dee sobre Ben ter te largado no Ano Novo.Anna mal piscou. Na verdade, ficou tão tocada com a sinceridade de Sam que quase sorriu.- Tô boba.- Tá legal, então você pensou que eu faria.- Digamos que a possibilidade passou pela minha cabeça.- Otimo. Neste caso, não pode ficar puta comigo.- Quem está puta? - perguntou Anna. - Não ligo que elas saibam, e ligo ainda menos para o que pensam.- Cammie disse que sabe quem era a mulher.- Sam, pare enquanto está por cima, tá bem?Sam pegou um pãozinho que estava num prato em cima da mesa e deu uma mordida, pensativa.- Como se você não quisesse saber.- Não quero - insistiu Anna.- Não sei se acredito em você - disse Sam. Ela pôs a mão no roteiro de Anna como se fosse a mão da própria Anna. - Mas você tem firmeza de opinião.Ela bebeu um gole do chá e fez uma careta, depois afastoua xícara para a beirada da mesa.- Eca. Nunca mais vou pedir isso. Olha, eu sempre gostei do Ben. Mas sua irmã está certa. Ben é um galinha. Você merece coisa melhor. Alguém mais meigo, que realmente vá te entender. E tão inteligente quanto você também.- Se quer dizer Adam, eu já te falei. Não é interessada em homens no momento, Sam.Sam passou um dedo contemplativo no ferro filigranado da mesa.- Engraçado, porque eu estou começando a sentir a mesma coisa. Às vezes acho que os homens são uma merda. E depois que conseguirem a clonagem, os homens ficarãoobsoletos. Já imaginou como a vida seria mais fácil se todas as mulheres mais legais fossem gays?- Na verdade, não - respondeu Anna. Essa era uma conversa muito esquisita. - Não acho que seja uma coisa que se possa escolher.Sam deu de ombros.- Não estou dizendo que é uma coisa que se possa fingir, mas é um fato científico que todos somos inerentemente bissexuais. É algo a se pensar. ..Provavelmente não. No momento Anna tinha uma ou duas coisas mais prementes em que pensar do que sua própria bissexualidade latente. Hora de mudar de assunto.- E aí... qual é o próximo passo?- Muito bem. Vou pedir ao gerente para fazer mais cópias do seu roteiro. Depois vou fazer umas anotações. Eu ligo para o seu quarto quando estiver pronto - prometeu Sam.- Parece um bom plano - disse Anna.

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