terça-feira, 7 de outubro de 2008

TAMANHO 34- Quarenta e oito, quarenta e nove, cinqüenta!Cammie se sentou na tábua de abdominais, tendo acabado uma série de cinqüenta.- Impressionante - disse Susan, enxugando o pescoço numa toalha. Ela havia acabado de fazer cinco quilômetros de spinning.Era o dia seguinte. Cammie ligara para Susan no Beverly Hills Hotel e a convidara a ir malhar com ela na Summit, a academia mais exclusiva de Los Angeles. Ocupando a cobertura e o terraço do prédio mais alto da Century City, a Summit atraía atores, modelos, executivos de estúdio e celebridades que não se importavam nem um pouco em pagar a taxa anual de cinco dígitos e que não gostariam de ser pegos nem mortos na, digamos, Los Angeles Fitness, independentemente de Cindy Crawford fazer a propaganda de lá.A Summit era enorme. A Summit era suntuosa. Haviauma piscina no terraço, quatro quadras de tênis iluminadas e uma quadra de basquete coberta, uma parede de escalada, um restaurante e uma loja de sucos, salas de aeróbica, ioga, spinning e kick-boxing, além de equipamento de halterofilismo, circuit training e cárdio, que alguém podia querer. O que mais agradava aos sócios - além de ficar isolados da ralé de Los Angeles, e da incrível vista através das vidraças que davam para o Pacífico e também para o centro da cidade - era que depois que saíam do andar da academia, não havia nada da presunção que estragava tantas academias.
Mesmo que os clientes estivessem mesmo na capa das principais revistas, todos se vestiam para malhar. E era por isso que Cammie e Susan estavam usando shorts comuns de ginástica, camisetas e calçados atléticos. Esse era talvez o único lugar "in" em Los Angeles em que se vestir bem era "out", a não ser no sentidode todos ficarem de olho na perfeição da forma física dos outros - ou na falta dela.- Pronta para se trocar? - perguntou Cammie, enxugando o cabelo molhado da testa.Susan concordou. Cammie levou-a até o vestiário, que exibia paredes de vidro do chão ao teto - o vidro era de uma face para que nenhum paparazzo de helicóptero, com lentes telescópicas, pudesse tirar fotos constrangedoras.- Ligou para Anna e disse a ela que vai me levar na festa dos Steinberg?Susan abriu o armário.-Não.- Por que não?- A gente brigou ontem à noite. A gente mal se falou quando voltou do deserto."Perfeito." Cammie tinha analisado o relacionamento de Susan e Anna. Susan era o ponto fraco de Anna. E, por extensão, seu cordeiro sacrificial.Cammie xingou a si mesma por não ter sido capaz de insistir com Ben Birnbaum. E xingou Anna Percy por ter tanto poder sobre ele. Ben tinha procurado por Anna em plena sauna Mount St. Helens, completamente vestido. Ele nunca fez nada disso por ela, e nunca faria. Magoava tanto saber que ele amava Anna de um jeito que jamais a amaria. Anna ia pagar por isso.Enquanto se despia, Cammie teve o cuidado de esconder o sorriso afetado. Susan era emocionalmente dependente de Anna; isso, Cammie já havia deduzido. Uma briga entre as duas era definitivamente uma coisa de que podia tirar proveito.A coitadinha da Susan podia facilmente ficar soltinha, sem a Anna para ampará-la.Cammie se espreguiçou, sabendo que seu corpo nu era incrível. Contrastan:do com o de Susan, cuja barriga era flácida e a bunda caía um pouco. Depois que elas se despiram para tomar um banho, Susan se enrolou numa toalha e prendeu a ponta.
- Mas e aí, sobre o que foi a grande briga? - perguntou Cammie.- Eu prefiro não falar sobre isso.Cammie riu.- Você parece a sua irmã.- Que se parece com a nossa mãe. Que provavelmente escreve um bilhete de agradecimento depois que transa. - A beira da toalha de Susan estava solta, revelando seu corpo nu. - Meu Deus, queria perder o peso que ganhei nareabilitação.Os olhos de Cammie varreram o corpo de Susan antes de Susan prender novamente a toalha.- Não é um porre? A mesma coisa aconteceu comigo quando fiquei na clínica.- Já perdi um quilo e trezentos - disse Susan. - Mais duas semanas e perco o resto.- Bom, admiro sua autoconfiança. Quer dizer, deve ser um saco ter uma irmã tão perfeita.Susan se limitou a dar de ombros.Elas passaram a meia hora seguinte no banheiro de mármore e vidro e na sala de vapor. Cammie tratou de deixar os olhos correrem pelo pequeno pneu na cintura de Susan, depois, quando Susan pegou Cammie olhando-a, ela fingiu que não estava olhando. Ela apontou para o corpo esbelto e lindo das outras mulheres que viam. E fez uma piada de que era ilegal ter tamanho acima de 34 na Summit.- E aí, que roupa vai usar na festa? - perguntou Cammieenquanto elas iam para a área dos armários.- A calça preta que compramos na Betsey Johnson.- Aquela? Ah. Ótimo. - Cammie se certificou de que a dúvida ficasse um pouco óbvia na sua declaração.Susan largou a toalha no cesto de toalhas molhadas e pegou as roupas no armário.- Que foi? Você me ajudou a escolher!- Ela é ótima - garantiu Cammie. - Você e Anna têm estilos tão diferentes.- E daí? - Susan fechou o sutiã e estendeu a mão para a camiseta.- É só que Anna nunca usaria a calça que você comprou.Susan puxou a calcinha, depois a calça jeans.- Eu podia usar qualquer outra coisa.- Não, essa é legal. Você tem gosto próprio. Quer dizer,você gosta desse visual. É ótimo.- Que visual?- Sabe como é, o visual eu-sou-legal-pra-caramba. Você é rebelde, isso é legal.- Obrigada, dr. Fred - resmungou Susan.
- Sei bem como você se sente - prosseguiu Cammie.Susan estava sentada no banco, amarrando as sandálias, então Cammie se sentou ao lado dela, curvando-se para se aproximar mais, a voz baixa e hipnótica.- Já sentiu como se você se deixasse vencer por tudo o que quer, que você simplesmente não pára de querer?- O tempo todo - confessou Susan. Ela pegou a outra sandália.- Tipo você nunca vai estar à altura. E nada consegue te satisfazer, nunca - continuou Cammie -, porque você é essa coisa gulosa, carente? Eu sinto isso o tempo todo.Susan olhou em volta. O vestiário estava vazio. Ninguém estava lá para ouvir a conversa.- Bom, você esconde muito bem.- É?- Cammie fingiu surpresa. Ela pegou as sandálias de camurça e couro Giuseppe Zanotti no armário. - Obrigada. Vou te contar, Susan, depois da reabilitação, eu tinhamedo de fazer tudo. Comer estava fora de cogitação ... eu estava uma porca. Beber como eu podia parar no primeiro drinque? Fumar bagulho eu queria fumar até esquecer e ficar ali. Coca, Ecstasy, sexo ... qualquer coisa que eu fazia antes da reabilitação, eu queria fazer sem parar.- E aí, como foi que parou?- Tive que provar que podia dominar isso, sabe? Quer dizer, o que eu devia fazer, ficar sozinha no meu quarto ouvindo música deprê pelo resto da minha vida? Então eusimplesmente, sabe como é, tomei um drinque. Cammie podia ver o anseio por "um drinque" na cara de Susan.- E?- insistiu Susan- E daí? É sério, foi a conclusão a que eu cheguei. Se eu tomar um ou dois drinques, e daí? Faz com que eu me sinta melhor. Eu não machuco ninguém. E provei que posso me divertir e não, tipo assim, simplesmente apagar.- Deve ser legal. - Susan se levantou, fechou o zíper da calça e vestiu a blusa Chanel..- É legal. - Cammie vasculhou o fundo da bolsa de ginástica e encontrou o que estava procurando: uma meia garrafa de vodca Flagman, o rótulo russo provando que era autêntica. Ela desatarraxou a tampa. - Não suporto que as pessoas me digam o que fazer. Quer um pouco?
- Não. - Susan borrifou perfume Escada no pescoço, depois começou a escovar o cabelo e a passar brilho labial- Tudo bem. Eu entendo. No seu lugar eu daria um belo "foda-se" a Anna e a todo mundo que acha que sabe exatamente como eu devo ser e quem eu devo ser. - Cammie tomou um gole longo e dramático. Podia sentir os olhos deSusan nela. - Ah, que bom. Nada faz me sentir assim. Tem certeza de que não quer?-Tenho.- Você tem razão. Se realmente está descontrolada, quer dizer. Um golinho e vai dançar feito uma gelatina. - Cammie pôs a garrafa de pé novamente.- Não estou descontrolada.- Anna acha que está. Do contrário, por que ela ficaria bancando O clube das babás com você? - Cammie levou a garrafa aos lábios mais uma vez; podia sentir o desejo de Susan enquanto o líquido causticante descia pela garganta. - Hmmm. Nada me acalma como a Flagman, sabia? Faz as outras parecerem água.Susan não respondeu, mas Cammie podia ver que ela estava trincando os dentes enquanto usava o secador de cabelo.- Mas olha só - prosseguiu Cammie. - Eu entendo totalmente. Acho que a Anna está certa. Você é essa mané descontrolada que nunca mais vai poder beber. Parece umasentença de morte, mas você sabe o que é melhor pra você.- Quando foi que eu disse que não ia beber nunca mais?Cammie deu de ombros.- Já passei pelo que você está passando. Para mim, a única maneira de derrotar o medo é fazer o que me assusta e provar que posso lidar com isso. Mas acho que você é diferente.Susan olhou para ela.- Que besteira.- Prove, então. Mané. - Cammie passou a vodca para Susan.Por um bom tempo Susan ficou olhando a garrafa como se fosse a caixa de Pandora. Cammie podia sentir que ela estava vacilando.- Por que eu deveria? - perguntou Susan, os olhos na garrafa aberta.- Para provar que ela não tem poder sobre você. Para provar que você não é a mané gorda que sua irmã acha que é.Outro longo intervalo, depois Susan pegou a garrafa das mãos de Cammie.- Sabe de uma coisa: minha irmã tem razão sobre você. Você é mesmo uma piranha.Elas se encararam. Por um momento Cammie pensou que Susan ia largar a vodca no chão do vestiário. Mas, em vez disso, Susan ergueu a garrafa até a boca e tomou umlongo gole.Bingo.
POR QUE TRANSFORMAR UMA COMÉDIA EM UMA TRAGÉDIA?- Anna! Mas que droga, Anna! - gritou Ben.Anna disparou pela porta do prédio de serviço do spa, decidida a não olhar para trás. Mas logo Ben estava ao lado dela.- Aonde está indo?Ela olhava diretamente para a frente.- Qualquer lugar que não seja aqui.- Ei, foi você que me ligou, lembra?- Vamos chamar de insanidade temporária.Ele manteve o ritmo enquanto ela andava a passos largospelos jardins luxuosos que levavam ao prédio principal.- Olha, eu não estava esperando uma revelação na sauna, Anna. Eu não planejei isso.- Legal. Você não planejou isso.- Então por que está me culpando?Ela virou para ele com tanta rapidez que ele involuntariamente deu um passo para trás.- Culpar? A culpa não tem nada a ver com nada. Está vendo o tipo de gente que você chama de amigos, Ben? Sam devia ser sua amiga, mas até ela chama você de galinha. Dee? Ela é ridícula. E Cammie é uma piranha insensível.- Não me julgue por elas...- Tudo bem, vou te julgar pelo que sei de você. Você disse que não sabe se transou ou não com a Dee porque estava chapado demais para se lembrar. Que tipo de pessoa faz isso, Ben? Você disse que me largou no Ano-Novo porque foi resgatar uma amiga. Depois nem entrou em contato comigo por três dias e por fim deu uma desculpa idiota! Ou estava bêbado naqueles dias também? Você não pode abdicar daresponsabilidade por seu comportamento só porque ficou íntimo do Johnny Walker Red Label!
- Não é uma coisa que eu... A situação era... - Ben parou.Ele suspirou. Os ombros caíram. - Tudo bem. Talvez você tenha razão.Ele parecia tão triste que Anna por um momento quis colocar os braços em volta dele.- Tem sorte que Dee não esteja grávida, Ben - disse Anna, a voz mais suave agora. - Mas não está vendo? Você não se lembra do que aconteceu naquela noite, o que significa que podia ser verdade. Então o que você teria feito?- Não sei. - A voz dele estava áspera, os olhos infelizes.- Com toda a sinceridade, me desculpe, Anna. Eu queria poder explicar para você entender... Mas acho que não importa mais pra você. Desculpe se eu te incomodei.Ele enfiou as mãos nos bolsos e se afastou. Anna não conseguiu evitar; ela sentia como se Ben tivesse arrancado seu coração do peito e estivesse levando-o com ele. Ou, mais precisamente, o arrastasse atrás dele. Ela teve que se obrigar a não segui-lo.Acabou. Acabou de verdade. Não havia mais nada a dizer.Quando Anna voltou para o quarto, a irmã estava parada do lado de fora da porta.- Bom, foi um espetáculo - disse Susan enquanto Anna abria a porta.- Que bom que pude te dar uma diversão pós-reabilitação.- Caraca. Não me lembro de ter ouvido você sendo sarcástica antes - comentou Susan.Anna se atirou no sofá, deitou-se e fechou os olhos.- Como pode achar isso engraçado?- Porque é. Por que transformar uma comédia em uma tragédia?Anna abriu os olhos de novo. Susan estava à mesa, olhando o cardápio do serviço de quarto.- E se eu tivesse dito isso a você?- Bravo, ponto para a irmã mais nova. Quer lanchar?- Adivinha uma coisa, Susan. É possível ter problemasde verdade na vida sem ter de ir para a reabilitação pararesolvê-Ios.Susan continuou com os olhos no cardápio.- Sei disso - disse ela em voz baixa.As lágrimas encheram os olhos de Anna quando ela se sentou.- O que aconteceu com você, Sooz?Susan olhou para ela.- Do que está falando?- A pessoa neste quarto comigo ... não é você.- Talvez seja.
- Não. Você nunca foi fria. Nem cruel. Nem desagradável. Você sempre foi ... Você se importava com as pessoas. Você se importava comigo.Susan largou o cardápio e foi até uma das poltronas felpudas. Ela se sentou com uma das pernas sobre um dos braços.- Talvez eu só não queira mais me importar tanto assim, Anna. A vida é mais fácil desse jeito.- Isso é simples demais - disse Anna. Ela não pretendia discutir com Susan, especialmente depois do que aconteceu na sauna. Nem tinha percebido conscientemente como o comportamento de Susan a estava incomodando. Mas aliestavam elas.-Por quê? Porque eu decidi não jogar mais pelas regras da mamãe? - perguntou Susan. - Todas as advertências e os adendos do que é ou não permissível? Deus lhe proíbe ter desejos. Deus lhe proíbe de ter paixão. As regras da mamãe são um porre, Anna. Prefiro viver do meu jeito e foder com tudo em vez de ficar nessa prisão. Eu já te disse isso, e vou dizer de novo: quando foi a última vez que você aproveitouuma oportunidade?- Vir para Los Angeles foi uma grande oportunidade, e não estamos falando de mim.- Tudo bem - rebateu Susan. - Porque para você é melhor se concentrar nos meus problemas do que nos seus. Então você se mudou para Los Angeles. Grande coisa. Nada mudou, só o mar.Anna sentiu seus punhos cerrando.- Tá legal. Vou tentar do seu jeito. Como é que é mesmo? Largar a faculdade para morar com um pobretão fracassado Ferrar com tudo. Depois ir para a reabilitação e abandoná-la. Depois se tornar a mané das festas. Entendi direitinho?Toda a cor sumiu da cara de Susan.- Eu não abandonei a reabilitação.- Abandonou, sim - insistiu Anna. - Pelo menos assuma seu...- Eu consegui ser expulsa - rebateu Susan. - Satisfeita?Anna ficou em silêncio. Ela não sabia o que dizer. Até que finalmente pensou numa coisa.- É claro que não estou satisfeita. O que aconteceu?Susan olhou para o tapete, como se não conseguisse suportar olhar para a irmã.- Eu não bebi, se é o que você pensa. - Por fim, ela ergueu os olhos. - Eu estava com um cara. Ele bebeu. A gente foi apanhado. E não vou perguntar se você acredita em mim porque não ligo a mínima. Então vai se foder, Anna, você e a sua caretice. -Susan se levantou e foi direto para a porta.Anna ficou sentada, atordoada. Ela sabia que Susan estava sofrendo. Devia haver segredos que Susan não queria dividir. Mas em vez de se colocar à disposição da irmã, ela a atacou. O pior era que Anna sabia como Susan ficava triste com isso,porque o pai delas tinha feito exatamente a mesma coisa.
BOTÃO VERMELHOAnna tinha a sensação de que não conseguia respirar, .mas não havia nada a fazer com o calor da sauna. Insano, bizarro mas era verdade - Ben Birnbaum , totalmente vestido, estava a alguns centímetros dela. As perguntas eram: como e por quê?- Ben? - perguntou ela, completamente surpresa.- Então é Ben Birnbaum, o bad boy - disse Susan com a voz estridente. - Que entrada interessante. Sou a irmã de Anna, Susan.- Anna, posso falar com você? Por favor? - perguntou Ben. - O quê, e deixar a gente de fora desse momento meigo? - perguntou Cammie, o tom de voz cortante. - Sam, espe ro que tenha gravado isso para a posteridade.- A câmera está desligada - disse Sam.Anna sentiu Sam encarando-a enquanto ela se virava para Ben.- Como soube que eu estava aqui? Eu não disse onde estava!- Eu tenho identificador de chamada. Olha, estou derretendo com essa roupa. Por favor. Só preciso de cinco minutos.Anna tinha se esquecido de que ligara para Ben do telefone do hotel. Não foi muito esperta. Mas agora ele estava ali, então ela teria que lidar com ele. Em particular.então ela teria que lidar com ele. Em particular.Ela assentiu rigidamente e desceu do banco de madeira. Ben se virou e empurrou a porta da sauna. A porta não se mexeu.Ele empurrou novamente. Nada.- Acho que está emperrada - disse ele, colocando pressão muscular na terceira tentativa. - Que ótimo, isto é bom pra caramba pra todo mundo.
- Aperte a droga do botão vermelho ao lado da porta - disse o cara peludo, aborrecido. - Alguém virá do prédio principal.- Enquanto isso - intrometeu-se Cammie -, todos adoraríamos saber o que Ben está tão desesperado para dizer a Anna.- A Anna, Cammie - disse Ben com firmeza. - Não a você.Ele já havia transpirado a camiseta toda, então a tirou.- Devo colocar uma música de strip- tease? - perguntou Susan delicadamente.Anna gemeu. A irmã estava botando mais lenha na proverbial fogueira, embora Anna tivesse de admitir que o torso retesado e suado de Ben era uma perfeição.- Talvezeu possa esclarecer um pouco as coisas,Ben - continuou Susan.- Anna acha que o único motivo para você querer voltar com ela é porque ela não quer mais você.Ben olhou para Anna.- Você disse isso a ela?Anna encarou a porta da sauna, desejando que abrisse.- Eu realmente não quero falar desse assunto aqui.- É porque Anna e Adam agora estão juntos - disse Dee a Ben.- Ela terminou com Adam - corrigiu Susan.- Essa não! - gritou Dee. - Quando foi que isso aconteceu?- Será que vocês, por favor...? - começou Anna.Ninguém a estava ouvindo.- Não é que Anna confie em você, Dee - disse Cammie.- E aí, Ben - começou Susan -, sabia que a Dee andou dizendo a todo mundo que te pegou em Princeton?- Susan! - protestou Anna.- Ah, qual é, Anna. O que toda essa besteirada de vamos- manter-tudo-em-particular vai te dar? Você acha que a mamãe é feliz? Acha que algum de seus amigos é feliz?- Meu Deus - murmurou Ben. - Estou num psicodrama.- Então você deve ser o psicó... é você que está de pé numa sauna, completamente vestido, meu bem - disse a mulher de meia-idade ao lado de Parker. - Quando a segurança vai chegar aqui? Estou completamente desidratada.Cammie se virou para Dee.- É verdade? Você dormiu com o Ben?- E se dormi? - desafiou Dee. - Foi quando eu viajei para ver a faculdade. Vocês nem estavam mais juntos.
- Nós não transamos, Dee - insistiu Ben.- Transamos, sim. Você estava de porre, então talvez não se lembre - declarou Dee. - Mas eu me lembro. Lembro de cada minuto.- Conte o resto a ele - insistiu Susan.- É segredo - disse Dee.Susan sacudiu a cabeça.- Não acha que deve dizer a verdade a Ben?Foi aí que Anna percebeu qual era "a verdade" a que Susan se referia. Dee deve ter dito a Susan a mesma coisa que disse a Anna - que estava grávida de Ben.Dee hesitou.- Émeio cedo para isso.- Olha, meu bem. Ou é a verdade ou não é-disse Susan.- Ou você está grávida ou não está.- O quê? - gritou Ben.Dee mordeu o lábio inferior.- Bom, na verdade, eu ainda não fui ao médico.Ben jogou as mãos pro ar.- Isso é loucura!- Ô, amigo, tem alguém aqui além de mim que você não comeu? - perguntou o cara peludo.Ben o ignorou.- Você não está grávida, Dee.- Como sabe disso? - respondeu Dee. - Eu posso estar.Sam deu um pigarro alto, atraindo a atenção de todos.- É mesmo? Então por que você bateu na minha porta ontem à noite e me pediu absorvente?- Na lata! - Susan riu.O único som na sauna foi o sibilar fraco do calor saindo das rochas vulcânicas.- Bom, eu achei que estava - começou Dee, a voz suave.- Quer dizer, talvez estivesse, por algum tempo. - Ela enterrou a cara nas mãos. - Vocês todos estão sendo tãogrosseiros.Anna se levantou.- Isso é horrível- declarou ela. - O que quer que tenha acontecido entre Dee e Ben foi entre eles. E o que quer que tenha acontecido entre mim e Ben diz respeito apenas a nós dois. Não me importo com o que vocês pensam. - Os olhos dela passaram de Sam para Dee e depois para Cammie. - E vocês três. Vocês dizem ser as melhores amigas umas das outras. Mas ficam tão... tão alegres com a infelicidade da outra. Qual é o problema de vocês?A sauna ficou em silêncio. Até Cammie fez a cortesia de parecer meio culpada, pelo menos momentaneamente. Por fim, a mulher mais velha quebrou o silêncio.-Aprendam comigo, meninas. Jamais fiquem loucas por um rostinho bonito. Casem-se com um homem que seja muito mais velho e mais rico do que vocês. Se vocês foremboas de cama, ele não vai exigir exame pré-nupcial. Com aquelas pérolas de sabedoria, a porta se abriu e dois seguranças entraram na sauna na frente de uma lufada de ar frio.- Vocês estão bem? - perguntou um deles.- Mais do que bem - exultou Monty, enquanto desligava a câmera de vídeo. - Peguei a porra toda na fita!
VINGANÇANinguém ferrava com Prima McNaughton e saía ileso. É claro que Prima ficou furiosa consigo mesma por ter caído na história idiota sobre a mãe estar procurando por ela.Mas era a idiota da Susan Percy que teria que pagar. Prima sabia que Parker e Susan iam mais tarde a uma das saunas do spa como parte de um filme de estudantes. Era tudo de que ela precisava.De biquíni na mão, Prima desceu às pressas a escada do prédio de serviço do spa, quase se chocando na base da escada com um cara incrivelmente gato. Alto e meio bronzeado, com cabelos castanhos curtos e olhos azuis, ele usava uma camisada cor dos olhos dele e jeans que o vestiam com perfeiçãoCaraca. Tempo. Susan podia esperar. Graças a Deus Prima estava com o minivestido Miu Miu e as sandálias de salto Manolo Blahnik - esse cara fazia Parker parecer um nerd. Hora de entrar em modo de azaração.Prima se apresentou. O cara disse que o nome dele era Ben; procurava uma amiga. Alguém da recepção disse a ele que Sam Sharpe estava filmando na sauna Mount St. Helens; ela sabia onde ficava?Prima tinha feito o dever de casa e apontou com confiança para a terceira porta à esquerda. Será que Ben ia se trocar? Porque Prima estava prestes a colocar o biquíni - ela acenou o material cor-de-rosa como quem dá mole. Quem sabe elespodiam ir à sauna juntos?Mas o cara, o Ben, tinha mentalidade limitada. Procurava por Sam e outra garota chamada Anna Percy. Tinha de encontrá-las.Anna Percy? A irmã da piranha da Susan Percy? Era uma maldita conspiração?Ben deixou Prima e foi para a sauna enquanto Prima o olhava, as mãos nos quadris. Hora de se vingar. Alguém tinha deixado uma barra de exercícios de metal no canto. Perfeito.Quando a porta da sauna se fechou, Prima apoiou a barra na maçaneta da porta e prendeu a outra ponta na parede do outro lado.Bingo. Eles estavam trancados lá.Ah, ela sabia que devia haver um botão de emergência ali.O V cobria a retaguarda para o caso de algum velho maluco ter um ataque cardíaco no meio da sauna e precisar de ajuda. Mas provavelmente levaria algum tempo até que alguém encontrasse o botão e o apertasse, e ainda mais tempo até que alguém chegasse na sauna a partir do prédio principal. Prima sorriu. A vingança era mesmo doce. Ela atirou as mechas ruivas e brilhantes no ombro. Depois foi embora o mais rápido que seus sapatos caros lhe permitiram.
MOUNT ST. HELENSA sauna Mount St. Helens no spa V tinha esse nome por um bom motivo - supostamente as rochas vulcânicas da sauna só eram coletadas dos taludes de um vulcão a tivo de Washington com o mesmo nome. Alegava-se que a sauna tinha poderes curativos especiais. Ao descer correndo a escada de mármore para as saunas no térreo do prédio principal do spa, Anna esperava que a sauna merecesse sua reputação, porque Sam ia dilacerá-la membro por membro - ela jáestava 45 minutos atrasada.
O fato de ela ter ficado no quarto trabalhando no roteiro e de ter se esquecido da hora era uma desculpa bem fraca. Depois de ter interrompido o telefonema para Ben, ela voltou a trabalhar e perdeu a hora.Quando chegou ao térreo, ela leu as placas em cada porta de madeira. Hidro Sauna de Alga Marinha. Sauna da Serenidade e Purificação. Ah, ali estava: Sauna Mount St. Helens.Anna pendurou o roupão branco e felpudo em um gancho do lado de fora da sauna e entrou. Ficou aliviada ao ver que todos no enorme espaço revestido de cedro estavam de roupa de banho. Parker estava com calções de surfe. Aos pés dele, a mulher de meia-idade que o perseguira o dia todo. Cammie estava deitada no banco mais alto com um maiô Gottex branco espetacular com decotes muito reveladores.Dee e Jamie Cresswell sentavam-se juntos no banco superior de frente para Cammie - e também havia alguns outros convidados. Enquanto isso, Sam e Monty manejavam duas câmeras diferentes - o filme estava sendo rodado._ Que bom que se juntou a nós, Anna - disse Sam.- Desculpe pelo atraso. Eu estava escrevendo.Sam desprezou a desculpa com um aceno.- Estamos bem aqui.- Posso ajudar em alguma coisa?- Em nada. Está tudo sob controle. Sente-se. Grata por Sam não tê-Ia deixado ainda mais constrangida, Anna encontrou um lugar junto à parede. Parker veio até ela e lhe deu um grande abraço. Anna foi pega de surpresa. Sim, ela conhecia Parker, mas não eram amigos íntimos.- Ei, vem aqui comigo - disse ele.Depois Monty apontou a câmera para eles e Anna percebeuque era tudo de propósito, para o filme.- A gente estava falando da festa dos Steinberg no sábado - disse Parker. - Sua irmã disse que você vai.- Hmmm, é - disse Anna. Ela se sentia constrangida e inibida. Ela disse a Sam que não queria estar no filme. Isso era uma forma passivo-agressiva de vingança?- Com o Brock "Sou-Tão-Pretensioso" Franklin - a crescentou Susan.- É, é, todos nós sabemos disso - disse Cammie.
- Anna é estagiária da agência do meu pai. Isso pode ficar interessante.- Não estou trabalhando para ele - disse Anna.- Na verdade, Anna, se você trabalha na Apex, então está - rebateu Cammie.- Sabe de uma coisa, Cammie, talvez seu pai pudesse conversar comigo como cliente - disse Parker. - É possível que eu faça uma nova produção dramática na WarnerBrothers. Sobre a garotada rica de Beverly Hills.- Que mora em Beverly Hills 90210? - perguntouCammie, virando-se de costas. Um cara baixinho e peludo com uns cinqüenta anos sorriu lascivamente, desfrutando a cena.Anna ficou confusa.- É nosso CEP?O cara peludo riu, e explicou a Anna:- Ela está se exibindo para você. Era um seriado de TV de antigamente que se passava em Beverly Hills, na área do CEP 90210: Barrados no baile. Eu tinha uma produção na Fox nessa época.- Com licença, Stevie, Stewie...como é mesmo seu nome?- interrompeu Cammie.- Stanley.- Stanley - repetiu Cammie. - Não estamos nem aí. Dee, que estava deitada atrás de Parker, sentou-se.- Você não conhece mesmo Barrados no baile, Anna?Anna balançou a cabeça negativamente.- Era sobre a garotada rica de Beverly Hills - explicouDee.- Tipo dez anos atrás, Dee - disse Cammie.- Bom, é, mas eles passam a reprise na TV a cabo o tempo todo. - Dee virou-se para Sam, que ergueu a câmera para focalizar nela. - Sabe de uma coisa, Sam, algumas pessoas dizeem que você parece a Tori Spelling. - Dee enumerouos motivos nos dedos: - Seu pai é um produtor famoso. Ela q queria entrar no ramo, então conseguiu um papel em Barrados no baile, que ele produzia. E eu li que ela sempre era meui insegura com a aparência...-Corta! - gritou Sam, abaixando a câmera e olhando para Monty até que ele desligasse a dele também. - Dee, não deve ser sobre mim. Estamos fazendo um filme.
- Bom, é, mas devia ser real, né? - perguntou Dee. - Além disso, você disse pra gente antes de a Anna chegar que Parker devia tentar chegar na Anna. Então só estou tentandodo criar tensão dramática.- É sempre bom saber que você está prestando atenção, Dee- disse Sam asperamente. - Dá para ter algum vapor aqui?Tá legal, vamos rodar de novo.Monty começou a filmar enquanto Parker colocava água fria nas rochas vulcânicas em brasa. Alguns filetes de vapor brancosubiram para o teto.- Mais - comandou Cammie, obviamente confortável demais para se mexer.- Se fizermos isso, não vamos conseguir te ver - disse Monty.- Não, peraí, vamos tentar assim - decidiu Sam. - Porque agora vocês não estão produzindo nada. Talvez mais vapor deixe vocês mais relaxados. Use a válvula.Sam apontou para uma válvula de saída de vapor no chão; Parker concordou em abri -la completamente. Um gêiser de vapor encheu a sauna, o bastante para obscurecer a vista de todos.- Perfeito. - Sam deu uma risadinha. - Parker, feche.Assim que a gente conseguir ver os rostos, Monty, comece a filmar de novo.Depois Anna ouviu a porta se abrir. Alguém entrou, mas ela não conseguiu ver quem era por causa do vapor espesso. Mas ela reconheceu a voz. Ela a reconheceria em qualquer lugar.- Anna, você está aí? - chamou a voz. - É o Ben.
ALÔ?- De acordo com Cammie, os coquetéis de sábado do V ao pôr-do-sol são desprezíveis - disse Susan a Anna. Elas estavam no quarto de Anna, onde Anna estava se vestindo para a festa. Susan já estava pronta: trocou o preto do Lower East Side por uma blusa de tricô de seda vermelha com gola rulê Patricia Field justinha, calças de veludo quadriculado Chanel e sandália vermelha de salto alto e tiras Miu Miu. Na verdade, a roupa parecia alguma coisa que Cammie vestiria.- Desprezíveis por quê? - perguntou Anna enquanto ia ao banheiro para escovar o cabelo.- Evidentemente não há homens héteros o suficiente pura todas, então a festa é a maior disputa de mulher a oeste de Mississippi.- Cammie sempre vem com essa. As mulheres não vão spas para transar - gritou Anna para a irmã pela porta entreaberta. - Vai ver que fazer compras demais fritou ocerebro dela.Anna sabia que Susan e Cammie tinham passado a tarde em um shopping de ponta-de-estoque perto da via expressa. Elas passaram por ele quando vinham para a cidade: era do tamanho de um pequeno parque temático e tinha todas asgrifes, de Armani a Zou Zou.- Como você sabe como são os coquetéis em spas? Sempre que íamos a um spa com a mamãe, você ficava com a cabeça enfiada num livro. - Susan abriu a porta do banheiro e enfiou a cabeça para dentro. - Não vai usar maquiagem nenhuma?- Não gosto de maquiagem.
- Jane Percy Júnior - caçoou Susan. - E aí, qual é a do Parker Pinelli? Eu o conheci hoje à tarde.- Bonitinho, legal, meditativo, não muito brilhante - disse Anna. - Se você mudar de idéia e fizer o papel de Nina no nosso filme, vai poder descobrir sozinha.Susan se espreguiçou.- Posso descobrir de qualquer forma. E não ligo para o QI dele. Não é na cabeça dele que estou interessada.- Ele ainda está no ensino médio, Sooz. Se você não fizer a Nina, vai ter que ser a Dee.- Eu nem gosto que tirem foto minha, Anna. Você sabe disso.É verdade.- Tá legal. Vai ser a Dee, então. Pode me trazer o telefone? - Anna se lembrou de que tinha de verificar com Brock Franklin sobre a festa dos Steinberg e ver a que horas elequeria que ela o pegasse. - E o número do hotel de Brock... está na minha bolsa.- Brock é um completo babaca. Lembra da minha amiga Alexandra Moir? - gritou Susan, depois apareceu com o telefone de Anna e o número de Brock. - Aquela quenamorou ele?- Achei que você é que tinha namorado Brock.- Uma vez. Mas ela ficou com ele por uns dois meses. Lembra dela?- Tinha cabelo ruivo e sardas bem bonitinhas, né? - disse Anna.- É. O pai dela é dono de metade do Lower Manhattan. seu novo amiguinho, o Brock, traiu Alexandra com uma rarota do Wesleyan que conseguiu uma matéria na Granta, aquela revista literária.- Eu não estou namorando Brock. Ésó trabalho. - Anna se sentou na borda da banheira e fez a chamada. - Ele já havia se registrado, mas não estava no quarto. Então ela deixou um recado lembrando Brock de que ela era irmã de SusanPercy e gostaria de se encontrar com ele no hotel na tarde seguinte, às quatro horas, antes da festa dos Steinberg.- Quais Steinberg? - perguntou Susan. - Os velhos ou os novos?- Acho que os novos. Sei que eu devia saber quem são, mas eu não sei.- Eles são simplesmente o casal de vinte anos mais poderoso de Hollywood. Ele dirige, ela escreve e produz. Os Steinberg velhos fazem filmes tipo ... ah, deixa pra lá. Você nem liga.
- Sinceramente? Não muito.- Não seja tão esnobe, Anna. Existem filmes americanos que são realmente bons. Vamos ver um quando voltarmos a Los Angeles. Por que não me contou antes que a festa era essa? Eu adoraria ir!- Viu como isso se resolveu bem? - perguntou Anna alegremente. Ela pegou um cordão de couro para prender o cabelo.- Ainda depreciando a realidade, pelo que vejo - observou Susan.Anna deu de ombros.- Fico à vontade assim.- O conforto é superestimado. - Susan se esticou, revelando a barriga. - Meu Deus, o que é um coquetel sem álcool?- Se você acha que não pode lidar com isso, fique aqui. Por que encarar a tentação?- Escondida no meu quarto? - escarneceu Susan. - Sem tentações, a vida é um tédio.Enquanto Susan ia até um espelho comprido para olhar seu corpo inteiro, Anna a analisou de uma forma diferentc. O que tinha acontecido com ela? Essa era a Susan Percy que falava quatro línguas fluentemente, que sempre usava as roupas mais caras, simples e de excelente gosto? Ou era a Susan que se formou em história moderna da Europa e queria acabar com a fome no mundo? Ou a Susan que morava no prédio sórdido da avenida D, em Nova York, com drogados recostados na escada dela?- Foi em Bowdoin - disse Anna categoricamente.-O quê?- Que você começou a beber.Susan afofou o cabelo.- Ah. Isso. Velharia.- Aconteceu alguma coisa com você lá, Sooz?- Eu saí de casa, foi só isso. E decidi viver do jeito que eu queria. Por que você tem que fazer psicodrama de tudo?- Havia uma aspereza na voz dela.- É só que você mudou - explicou Anna. - E eu não sei por quê.- Talvez você devesse se perguntar por que você não mudou -disse Susan.- Como assim?Susan cruzou os braços.- Você me disse que veio para a Califórnia pra mudar de vida. Só que não mudou nada.Arma ficou surpresa. Era como se a irmã estivesse partindo para o ataque.- É só por alguns dias, Sooz.- É, mas olha quem você está namorando. Adam, o cara legal.- Legal não é um palavrão, Susan.E além disso, eu terminei com ele.
Susan pareceu surpresa.- Desde quando?- Desde que você apontou o erro no meu jeito de escolher alguém seguro - respondeu Anna. - Parecia mais que eu estava usando alguém seguro. Gosto demais do Adam pra fazer isso com ele.- Bom, você não é nenhuma escoteira. E aí, vai voltar com o bad boy?- Eu só quero ficar sozinha por algum tempo.Susan riu.- Nenhuma mulher quer ficar sozinha.A irritação de Anna explodiu.- Nem sempre se trata de homem, tá legal? Ninguém te obrigou a grudar com aquele mané com quem você ficou na faculdade.Susan fechou a cara.- Você nem o conheceu. E não faça isso comigo, Anna.Tá bom, vamos fazer comigo então.- Posso te dizer exatamente o que vai acontecer. Você vai passar mais ou menos um mês nessa de "sou mulher" e Adam simplesmente vai ficar por aí de qualquer forma, esperando que você mude de idéia. Você vai gostar disso... porque vai ter ainda mais poder.- Meu Deus, você me irrita, Susan! Não foi por isso que eu terminei!- Minta pra si mesma, se quiser - disse Susan alegremente. - Mas não pra mim. Com ele, você mandava no show. Anna chama, Adam vem. Literal e figurativamente.- Que baixaria - disse Anna.- E verdadeira. Mas o que acontece quando você não está no controle? O que acontece?Eu sei exatamente o que acontece, pensou Anna. Acontece Ben.Quando Anna e Susan chegaram, a festa já estava a todo o vapor. Enquanto um quarteto de cordas tocava Mozart, os privilegiados e lindos se misturavam. Parker e Dee estavam na mesa com uma ruiva linda; Anna pôde ver uma cópia de seu roteiro na frente deles. Ela deu uma olhada no bar: a mulher de meia-idade que tinha dado em cima de Parker mais cedo estava segurando um drinque alto, atirando flechas imaginárias para ele. Perto, Sam estava imersa numa conversa com Jamie Cresswell, o cara que ela escolhera para interpretar Mike. Monty Pinelli segurava uma câmera de vídeo portátil de alta resolução e falava com uma das gerentes do spa.
Quando Susan e Anna se aproximaram, Parker levantou-se para recebê-las. Ele beijou Anna no rosto, apertou a mão de Susan calorosamente e depois foi procurar duas cadeiras. Um minuto depois ele as estava apresentando à linda ruiva, cujo nome era Prima McNaughton. Ela estava de visita, vinda do Texas com os pais. Prima tinha um tique incomum. Sempre que Parker olhava para ela, ela se inclinava o bastante para que seus seios massageassem o braço dele.Susan olhou bem para a garota.- Peraí, seu nome é Prima McNaughton?- A-hã.- Sua mãe é bem magra? - perguntou Susan.- É. Por quê?Susan fez uma cara de quem se concentra.- Graças a Deus eu encontrei você. Eu a vi agora mesmo perto da segurança do prédio principal. Ela procurava por você. Lembro disso porque seu nome é muito incomum. Ela parecia frenética.- Juro que é como se eu estivesse com uma coleira - falou Prima de forma arrastada, com um suspiro. Ela se levantou. - Encontro vocês depois.Susan acenou com os dedos para Prima enquanto ela se afastava.- E aí, Parker, nos encontramos de novo - disse ela sedutoramente, e Anna percebeu que a irmã estava tendo uma atitude digna de Cammie. Isto é, ela inventou uma história para se livrar de imediato de Prima e poder avançar em Parker.- Oi, Susan. Você está ótima - disse Parker. - Posso pedir uma bebida para as damas?- Qualquer coisa sem álcool e com frutas - disse Susan tranqüilamente.- O mesmo para mim - concordou Anna.Parker se virou e acenou um dedo discreto para atrair a atenção do garçom, depois tocou o roteiro em cima da mesa.- Os monólogos que você escreveu são ótimos, Anna - disse ele. - Eu não sabia que você era escritora.- Obrigada - disse Anna. - Sinceramente? Nem eu.- Eu também adorei meu monólogo - disse Dee.- "Nem sei quem sou" - recitou ela com sua voz infantil, praticando uma das falas. - Cara, isso é tão verdadeiro. Você podemesmo se tornar uma roteirista de verdade, Anna. Vai estar aqui quando a gente filmar amanhã de manhã?
Anna tinha sugerido a Sam que elas rodassem os monólogos no deserto pela manhã, para tirar vantagem da luz do sol. Ela pensou que os closes à luz do dia ficariam excelentes contra todas as tomadas noturnas e internas que iam fazer. Sam concordou prontamente e chegou a elogiá-la por sua sensibilidade visual.Anna assentiu.- Vou, para o caso de precisar fazer mudanças de última hora. Nunca se sabe. Na verdade, logo depois dessa festa vou voltar para meu quarto. Não estou satisfeita com um dos monólogos do Mike e quero reescrever. É estranho, como se eu não conseguisse tirar as falas da minha cabeça.- Não precisa reescrever nada - insistiu Parker. - Seu primeiro rascunho é melhor do que a maior parte da porcaria que tenho que ler nos testes.- Obrigada - disse Anna, surpresa com o nível de excitação com o projeto. Especialmente porque a reação de Sam tinha sido morna.- E aí, quando vai filmar o resto disso? - perguntou Susan depois que o garçom sinalizou que chegaria logo.- Sam e Monty vão começar a rodar as cenas de fundo aqui na festa a qualquer momento - disse Anna a ela. - A última seqüência será na sauna Mount St. Helens, mais tarde.- Parece quente e suarento - disse Susan, rindo. - E divertido.Parker ergueu as sobrancelhas e sorriu maliciosamente.- Podia ser. Mas eu soube que você não quer entrar no filme.Susan franziu os lábios.- Eu podia deixar você me convencer.Parker se inclinou para Susan.- O que seria preciso para você mudar de idéia?- Hmmm ... Ainda não sei bem. Mas estou disposta a descobrir, se você estiver.Susan e Parker olharam-se nos olhos eAnna concluiu que não era capaz de suportar nem mais um segundo ali. Esta festa era uma perda de tempo. Cada minuto em que estava sentada ali era outro minuto em que não estava trabalhando no roteiro. E o monólogo de abertura de Mike a incomodava cada vez mais. Apesar das garantias de Sam de que dava para rodar, Anna não achava que estava totalmente bom.
- Com licença - disse ela, levantando-se. - Vou voltar ao trabalho.Dee disse um até logo, mas só o que Susan e Parker conseguiram fazer foi dar um aceno meio frio. Anna fez uma prece silenciosa para que a irmã estivesse usando anticoncepcionais e depois foi para o quarto. Algumas horas com seu roteiro, seu laptop e sua impressora pareciam extremamente convidativas.Isso foi poucas horas antes de Anna tirar os olhos do laptop. Ela não tinha idéia de quanto tempo se passara. Agora o monólogo de Mike estava muito melhor, mais sincero. Ela releu as últimas frases.As pessoas podem chamar de paixão. Ou desejo. Ou obsessão. Eu não me importo. Só quando estou com ela, tocando-a, é que me sinto completamente vivo. Se vocênunca sentiu o poder disso, eu lamento por você.Anna se levantou e alongou o pescoço. Antes de Ben, ela nunca poderia ter escrito essas falas porque, antes de Ben, ela não conhecia esses sentimentos. Se pudesse voltar no tempo e magicamente fazer com que os dois nunca se conhecessem, ela não teria feito isso. Porque junto com a dor estava a doçura de sentir tudo o que ela sentia por ele. Parte dela queria que ele soubesse disso. E nem importava a garota na esplanada."Mas como posso? Ele acha que estou com Adam", percebeu Anna. "Queria que ele soubesse que eu não o troquei por ninguém, a não ser por mim mesma. Que eu não namoro pessoas para afastar a solidão. Ben devia saber que estou sozinha. Por opção própria."De repente, corrigir a impressão de Ben de que ela estava com Adam tornou-se a prioridade número um de Anna. Ela procurou o número de Ben no PalmPilot. Depois pegou o celular na bolsa, mas a bateria tinha arriado - ela esquecera le recarregar. Impulsivamente, ela pegou o telefone do hotel lia mesa e ligou para o celular de Ben.-Alô?A voz de Ben! A primeira reação de Anna foi desligar. Não, isso era ridículo. Estava sendo imatura. Ela estava no comando.- Oi, Ben, é a Anna.- Anna.A voz dele era como uma carícia. De repente ela se sentiu ridícula. Será que devia simplesmente vomitar que ela e Adam não estavam juntos? Agora, tarde demais, ela percebeu que pareceria uma paquera ridícula. Ela terminou com Ben! Por que ele se importaria se era porque ela estava com Adam, Mickey Mouse ou qualquer outro?Resposta: ele não ia se importar.- Desculpe, eu não devia ter ligado - começou ela.- Devia, sim! - disse ele rapidamente. - Eu estava pensando em você.A mão de Anna estava bem úmida no telefone; isso revelava o quanto estava nervosa.- Eu ia te dizer que Adam e eu não estamos nos vendo mais. Mas agora parece ridículo.- De jeito nenhum - garantiu-lhe ele. - Onde você está?- Isso não importa. Eu não devia...- Dá pra parar com isso, Anna? Onde é que você está?- Não é o que você pensa, Ben - prosseguiu Anna, sentindo-se pior de repente. - Eu não quero ficar com ninguém agora.Silêncio.- Peraí. Você ligou pra me dizer que quer ficar sozinha?- Desculpe, Ben, de verdade.- Anna, que diabos ...Ela desligou, as mãos tremendo. Meu Deus, que idiota ela era! Por que teve que ligar para ele? Que parte perversa de seu cérebro decidiu que era uma boa idéia?Anna foi para o quarto e se deitou na cama. Que coisa mais imbecil de se fazer. Ela estava com nojo de si mesma.Quem diabos era ela para julgar o comportamento de Susan quando o próprio comportamento era tao patético.Para isso, ela não tinha nenhuma resposta.
DR. FREDSam digitou o número já conhecido em seu celular e andou enquanto ele tocava. "Atende, atende, atende", murmurou ela a meia voz. A conversa que acabara de ter com Anna tinha sido muito estranha. O tempo todo ela teve que se esforçarpara olhar para o queixo ou a orelha de Anna. Porque ela ficou tão obcecada com a boca de Anna, que foi preciso toda a concentração do mundo para não olhar para ela. Sam não estava pensando no filme que estava prestes a rodar. Não estava pensando em nada a não ser na boca de Anna. Como era sábado, ela ligou para a casa do dr. Fred. E embora fosse verdade que tenha demitido o psicoterapeuta alguns dias antes, Sam sabia que ele ia ficar encantado em tê-la de volta. O dr. Fred podia ser famoso, com seu próprio programa de televisão, mas o pai de Sam o ajudara a chegar lá contratando-o como o psicanalista dela.
Ela era uma de suas clientes filhas-de-celebridade, e Jackson Sharpe tinha sido umdos primeiros convidados do programa dele. Os honorários iam à estratosfera. Logo, ele devia muito a ela.- Alô? - Sam reconheceu a voz dele, com as vogais distintamente abertas do meio-oeste.- Dr. Fred? É Sam Sharpe.- Sam! Que bom te ouvir!"E aí ele volta se arrastando", pensou Sam. "Sem outros 'não ligue para a minha casa' ou 'espere até a próxima sessão". Eu sabia.- Como você está, Sam? - continuou o dr. Fred. - Andei preocupado com você o ano todo. É claro que o ano começou há alguns dias. - Ele riu da própria piada sem graça.Sam pensou na melhor abordagem para fingir que não o havia demitido.- Estou em Palm Springs com umas amigas. As coisas estão esquisitas.- Como assim?- Bom, tem uma garota aqui. O nome dela é Anna. Ela é uma nova amiga.- Sim?- Ela é de Nova York. Inteligente. Linda. Rica.- Sim?- Ela é maravilhosa. E talentosa. Estamos trabalhando num filme para nossa aula de inglês. E ela disse que escreveria o roteiro para ele. E eu pensei: "É, tá legal. Vai em frente. Escreva seu roteiro. Mas vai ser tão chato que é melhor eupreparar um roteiro de reserva só pra garantir."- E?- insistiu o dr. Fred.- Ela escreve bem mesmo. O roteiro era melhor do que o meu. Bem, talvez.- Disse a ela como era bom?Sam hesitou. Ela e o dr. Fred trabalharam no ciúme de Sam por algum tempo. O dr. Fred ficaria muito decepcionado se soubesse que Sam tinha dito a Anna que o roteiro era bom e "não ótimo".- Na verdade, não.- Sam, só porque Anna é boa em alguma coisa não quer dizer que você não seja. Não há limites para quantas pessoas podem ser boas em alguma coisa.- Tá legal, vou trabalhar isso - disse Sam, dispensando o conselho. Tinha um problema maior para resolver. - Mas não foi por isso que eu liguei. Liguei porque não consigo parar de pensar nela.- Pode ser mais específica, Sam?- Tipo assim... eu quero beijá-Ia - confessou Sam, diminuindo o tom da voz.- Interessante.
- Não, não é interessante - rebateu Sam. - Eu disse: as coisas estão esquisitas.- Tudo bem, então você gostaria de beijar essa amiga nova - respondeu o dr. Fred. - Como isso é esquisito?- Me deixa lembrar você de novo - disse Sam lentamente. - Ela é uma mulher.- Então, você está preocupada que tenha impulsos sexuais voltados para essa jovem?- Não é que eu queira ir para a cama com ela - insistiu Sam, o coração aos saltos. - Eu só queria beijá-la. É meio como em Beijando ]essica Stein, sabe qual é?Quando a garota hétero pensa que se sente atraída por uma mulher, mas na verdade ela é hétero e no fim ela termina com aquele cara ótimo.- A-hã - murmurou o dr. Fred. - Só que no filme a garota hétero realmente se sente atraída pela garota gay. Sua nova amiga Anna é gay?- Não. Talvez. Não sei. Ela me disse que está dando um tempo dos homens. Isso quer dizer que ela pode ser gay. Ou pelo menos bi. - Ou só quer dizer que alguma coisa aconteceu na vida dela que a fez querer dar um tempo de homens e se concentrar em si mesma, para variar. Acho que você se sente ameaçada por este impulso - supôs o dr. Fred.- Não. Não mesmo. Por que estaria? Não é tão incomum, é? Ou estou totalmente fodida?- Todos nós temos de nos lembrar de que nosso valor pessoal não é determinado por nossa sexualidade - declarou o dr. Fred. - Você tem repetido suas afirmações?O dr. Fred e a porcaria das afirmações dele. Ele chegou a ter uma nova linha de cartões de apresentação com aquelas malditas afirmações. Eu crio minha própria realidade. Sou um perfeito ser de luz. Eu escolho ser feliz agora.- Não. Elas são idiotas.- Como se você tivesse bom senso para dizer isso. Tudo pode ter a ver com o seu pai, Sam. E sua hostilidade em relação a Poppy. Por ora, diga suas afirmações e pratique aqueles exercícios respiratórios que eu te passei. Não seja tão dura consigo mesma.consIgo mesma.- Tá, tá, tá - grunhiu Sam.- Posso agendar uma consulta para você no seu antigo horário da quarta-feira - prosseguiu o dr. Fred. - Posso te esperar?- Tá - disse Sam, de má vontade. Pelo menos o Dr. Fred a ouvia.- Excelente. E, Sam, sentir uma coisa e agir de acordo com o que sente são coisas diferentes. Lembre-se disso.Sam desligou e se esparramou na cama de bétula sueca, diretamente abaixo do delicioso nu a óleo de Marily Monroe. Não se sentia menos ansiosa.- Sentir uma coisa e agir de acordo com o que sente são coisas diferentes - murmurou ela para si mesma. Mas isso não a fazia se sentir melhor.
UM FATO CIENTÍFICOEnquanto a luz ocre da manhã escorria pela janela, Anna deu uma lida nas novas páginas do roteiro. Ficou acordada a noite toda revisando e tinha bolado um título perfeito: Tripolar. A reescrita melhorou enormemente o texto, mas ela ainda nãosabia se o que tinha escrito era realmente bom.Os três personagens foram renomeados: a mulher era Nina, os dois homens eram Dan e Mike.
Depois de ter lutado uma eternidade com o diálogo - e decidir às três da manhã que seus personagens falavam como se tivessem saído de um romance como aqueles Julia e Sabrina- Anna fmalmente preferiu escrever três monólogos que podiam ser intercalados, em que os personagens falavam diretamente para a câmera.A família de Dan havia ganhado recentemente uma montanha de dinheiro no mercado de ações; Mike vinha de uma família da elite aristocrática de Boston. Para Nina, Annadecidiu se concentrar em quem era e no que queria, em vez de em sua formação familiar. Numa tradição gatsbyana clássica, aquelas esperanças e sonhos entraram em conflito direto: o desejo de ter uma grande família ou uma grande carreira, uma vida simples ou um monte de dinheiro, viver uma longa vida, mas que envolvesse assumir riscos físicos e assim por diante.Os três monólogos também podiam ser usados como falas em off para o filme que deveriam rodar."Provavelmente é um saco", pensou Anna quando se levantou. Hora de encarar a Sam. Ela mandou uma cópia para Sam de manhã cedo; elas concordaram em se reunir no pátio às onze para conversar sobre o roteiro.Quando Anna chegou no pátio ao lado da sala de jantar, Sam já estava na mesa ao sol, bebendo uma xícara fumegante do que ela disse ser chá Curativo Flora BIJA. Ela usava uma camiseta stretch Pucci num turbilhão de cores primárias e jeans Seven. Sua maquiagem estava perfeita como sempre, e era óbvio que Sam tinha feito escova no cabelo pela manhã no salão do spa.Um garçom apareceu quase imediatamente. Anna pediu uma limonada enquanto Sam dizia que Susan tinha ido a algum lugar com Cammie e que Dee estava fazendo umaaula de ioga.- Parker já chegou - disse Sam, indicando o bar ao ar livre. Anna o viu ali com uma mulher de meia-idade bem conservada que usava um hibisco rosa atrás de uma orelha. A cor rosa-shocking combinava com o suéter felpudo, tão pequeno que fazia com que os peitos dela parecessem armas letais.
- Que pena que não podemos colocar isso no filme - disse Sam enquanto a mulher mais velha se aproximava de Parker com um desejo mal disfarçado nos olhos. - AChick é um clássico: criada no Simi Valley... casada com um magnata da indústria da TV... chegou até esse status na maior mordomia.Anna olhou para seu roteiro - estava em cima da mesa, ao lado da xícara de chá de Sam. Sam falava de tudo, menos dele. Não era um bom sinal.Anna bateu o dedo na capa.- Você detestou.Sam sorriu por trás dos óculos de aviador Gucci.- Você está nervosa! Não pensei que um dia te veria nervosa.- Bom, aproveite. - Anna cruzou os braços. - E aí?- Tá legal, tá legal. O que você escreveu é bom.Anna se espantou com o fato de o elogio ter agradado tanto.-É mesmo?- Não é ótimo - alertou Sam. - Vamos fazer umas mudanças de última hora nos diálogos antes de rodar, é laro. Mas já dei os monólogos de Parker e Dan para quetrabalhem nele, então isso diz alguma coisa. Está vendo o ara falando com Monty no bar? Com o queixo quadrado e abelo curtinho? É Jamie Cresswell. Acho que os ancestrais dele vieram no Mayflower ou coisa assim.- Como sabe disso?- Porque ele me disse hoje de manhã quando comíamos omeletes de clara de ovo. Ele nunca atuou em nada, mas tem uma banda de rock. Eu disse as palavras mágicas... Jackson Sharpe... e depois, para ele aceitar, disse que meu pai estáprocurando por um grupo sem contrato para fazer uma participação pequena no novo filme dele. De repente ele ficou todo animadinho para interpretar o Mike.- Éverdade? - perguntou Anna. - Sobre seu pai estar procurando uma banda desconhecida?- Francamente. - Sam agitou a mão, rejeitando a idéia. - Meu pai não lida com esse tipo de detalhe. Eu inventei tudo, mas foi por uma boa causa. Então vou trabalhar comos atores hoje à tarde e vamos rodar à noite com as deixas em cartões, cortesia de Monty e um pincel atômico. Vai ser moleza cortar na ilha de edição. Obrigada por facilitar nossa vida.
Anna se sentia ótima. Quem teria previsto que ela se tornaria roteirista? Os professores dela sempre disseram que tinha talento. Ela se lembrava de um professor de inglês particularmente bom no ensino fundamental que insistia com Anna para que ela "se soltasse" quando escrevesse. Bom, talvez ela finalmente tenha aprendido a fazer exatamente isso.- Quem vai fazer a Nina? - perguntou Anna.- Que tal... você? - sugeriu Sam.- Definitivamente não.- Eu tinha que arriscar. Eu adoraria que Susan fizesse, então.- O risco é maior ainda - disse Anna. - Ela nem deixou que tirassem uma foto dela para o livro do ano do Trinity.- Então vai ter que ser a Dee - alertou Sam. - A não ser que você mude de idéia sobre a Cammie.- Não. - Anna foi enfática. - A Cammie, não. Qualquer uma, menos a Cammie.- Por falar nisso, tenho uma confissão a fazer. Eu falei com a Cammie e a Dee sobre Ben ter te largado no Ano Novo.Anna mal piscou. Na verdade, ficou tão tocada com a sinceridade de Sam que quase sorriu.- Tô boba.- Tá legal, então você pensou que eu faria.- Digamos que a possibilidade passou pela minha cabeça.- Otimo. Neste caso, não pode ficar puta comigo.- Quem está puta? - perguntou Anna. - Não ligo que elas saibam, e ligo ainda menos para o que pensam.- Cammie disse que sabe quem era a mulher.- Sam, pare enquanto está por cima, tá bem?Sam pegou um pãozinho que estava num prato em cima da mesa e deu uma mordida, pensativa.- Como se você não quisesse saber.- Não quero - insistiu Anna.- Não sei se acredito em você - disse Sam. Ela pôs a mão no roteiro de Anna como se fosse a mão da própria Anna. - Mas você tem firmeza de opinião.Ela bebeu um gole do chá e fez uma careta, depois afastoua xícara para a beirada da mesa.- Eca. Nunca mais vou pedir isso. Olha, eu sempre gostei do Ben. Mas sua irmã está certa. Ben é um galinha. Você merece coisa melhor. Alguém mais meigo, que realmente vá te entender. E tão inteligente quanto você também.- Se quer dizer Adam, eu já te falei. Não é interessada em homens no momento, Sam.Sam passou um dedo contemplativo no ferro filigranado da mesa.- Engraçado, porque eu estou começando a sentir a mesma coisa. Às vezes acho que os homens são uma merda. E depois que conseguirem a clonagem, os homens ficarãoobsoletos. Já imaginou como a vida seria mais fácil se todas as mulheres mais legais fossem gays?- Na verdade, não - respondeu Anna. Essa era uma conversa muito esquisita. - Não acho que seja uma coisa que se possa escolher.Sam deu de ombros.- Não estou dizendo que é uma coisa que se possa fingir, mas é um fato científico que todos somos inerentemente bissexuais. É algo a se pensar. ..Provavelmente não. No momento Anna tinha uma ou duas coisas mais prementes em que pensar do que sua própria bissexualidade latente. Hora de mudar de assunto.- E aí... qual é o próximo passo?- Muito bem. Vou pedir ao gerente para fazer mais cópias do seu roteiro. Depois vou fazer umas anotações. Eu ligo para o seu quarto quando estiver pronto - prometeu Sam.- Parece um bom plano - disse Anna.
SINCERIDADEBen se deitou na espreguiçadeira da piscina dos fundos da casa dos pais,bebericando uma cerveja, olhando para o turvo céu noturno de Los Angeles, turvo por causa da poluição. Eram quase duas da manhã, mas ele não conseguia dormir. Seu pai havia desaparecido por aí e a mãe não conseguia parar de chorar. A casa estava um desastre. Na verdade, ele sentia que tudo em sua vida estava um desastre.
Onde Anna estava agora? Estaria olhando para as mesmas estrelas neste exato minuto? Será que pensava nele? Provavelmente não, a não ser que estivesse feliz por ter se livrado dele. Mas mesmo quando pensava nisso, outra parte de Ben sabia que não era verdade. Não podia ser verdade. Ele conhecia Adam Flood. Até gostava dele - eles jogaram basquete juntos e Adam tinha lhe dado uma surra. Adam Flood eraum cara legal. Mas Ben tinha certeza de que Adam não podia fazê-La sentir o que ele a fazia sentir. Se ele não conseguisse falar com ela mais uma vez e explicar realmente..."Que besteira. Ela tem namorado novo. Você já decidiu deixá-La pra lá, cara. Então dá um tempo."Ben tomou um susto tão grande quando o celular tocou que quase deixou cair a Heineken.-Alô?- Oi. Eu estava sonhando com você. - Ninguém mais no mundo tinha essa voz sombria e rouca.- São duas da manhã, Cammie - disse Ben, cansado.- Não, eu estava mesmo - disse Cammie.- Não quero saber disso.- Quer, sim. A gente nem estava na cama.- Mas que surpresa.- Muito engraçado. Olha: você era advogado e estava na argumentação de um caso na Suprema Corte dos Estados Unidos. Eu estava na galeria, te vendo. E estava tão orgulhosa!Ben realmente olhou para o telefone, como se fosse magicamentecapaz de ver Cammie através dele.- Isso foi ... legal, Cammie - disse ele, uma vez que nãoconseguia pensar em nada melhor.- É - disse ela de um jeito tristonho. - Foi.Tudo bem, Cammie estava tramando alguma coisa. Elaera uma garota calculista. Ben tomou um gole contemplativoda cerveja.- O que você quer, Cammie?- Devo ser sincera?- Claro - disse Ben.- O que eu quero é... um novo começo. Para nós.- Qual é, Cammie - repreendeu-a gentilmente. - Não existe mais nenhum "nós" e você sabe disso.- Pode haver. Tem idéia de como eu lamento? Que tanta coisa tenha dado errado?- Eu lamento também, Cammie, mas ...- É por causa da Anna? - perguntou Cammie.- Nós terminamos antes de eu conhecer a Anna, Cam.
Mas por quê? - gemeu Cammie.Ben podia ouvir as lágrimas na voz dela. Era tão diferente da Cammie fria como iceberg que ele conhecia. Este lado terno e vulnerável era um aspecto que ela mantinha bem escondido. O que tornava muito mais difícil dizer a ela querealmente acabou, para sempre.- Nós dois nos afastamos, Cammie - disse ele por fim.- Mas se você não tivesse se apaixonado pela Anna, a gente ficaria junto novamente no casamento do Jackson. Eu sei disso.- Foi por isso que você rasgou metade do vestido da Anna naquela noite?- Eu nunca teria feito aquilo se não quisesse você. Você devia considerar um elogio. Nós realmente temos que conversar, Ben. Pessoalmente. Então por que não vem atéaqui?-Aqui onde?- Estou no spa Veronique. Sabe onde fica, em Palm Springs. A gente pode andar pelo deserto. Ou colocar uma placa de Não Perturbe na porta e ficar na cama o dia todo. Eu sei de tudo o que você gosta, Ben. Sei exatamente como deixar seu fogo aceso ...Cammie estava enrolando a língua. Isso explicava tudo.- Cammie, você andou bebendo?- Um pouco de vinho, só isso.Ben tomou outro gole de cerveja.- Cammie, eu agradeço muito pelo convite, mas...- Você viria se a Anna estivesse aqui?Isso atraiu a atenção de Ben.-Ela está?- Não - disse Cammie rapidamente. - Ela não estáaqm.- Isso não importa - disse Ben com tristeza. - Ela me deu o fora. Eu fiz umas idiotices. Tive o que merecia.- Que idiotices? Tipo o que aconteceu na véspera de Ano-Novo?Ben estremeceu.- Como sabe disso?- Como se houvesse algum segredo em Beverly Hills. Eu sei quem era a mulher, aliás.- Que mulher?- Aquela que derrubou a Anna no Ano-Novo. Ela ia adorar saber.-Cammie ...- O nome é L-o-v-e, não é? Você a conheceu no verão passado, quando sua mãe levantou recursos para o CedarsSinai. Você me contou tudo, lembra? A imagem pública de pura-como-a-neve e os medonhos hábitos pessoais dela. Os versos que ela pôs na capa do primeiro CD que ela fez.- Que desperdício para ela quando o filme dela afundou. Você disseque ela era uma caipira texana.- Eu não disse isso, Cammie.- Ben, me conta a verdade. Quando estávamos juntos, você me traía com ela?- Ah, qual é, sem essa.Ben se levantou e foi para a piscina. Ele estava descalço, então se sentou na beira e mergulhou os pés na água aquecida.- Primeiro, eu nunca disse nada dessas coisas sobre ela.E nunca dormi com ela. Somos amigos, é só isso.- Esse é o código de Beverly Hills para "Eu transei pra caramba com ela mas estou sendo discreto".- Cammie, pode pensar o que você quiser. Eu não dormi com ela.Ben ouviu Cammie suspirar.- Teria sido mais fácil se tivesse. Então pelo menos eu ia entender por que você terminou comigo. Qual é, Ben. - A voz dela estava baixa, sensual, hipnótica. - Venha para o deserto. A noite está gloriosa aqui. Por um instante Ben ficou tentado pela cabeça abaixo da cintura. Do ponto de vista puramente físico, nunca houve ninguém como a Cammie. Uma noite com ela podia abafar a dor que estava sentindo por causa de Anna. Mas não. Esse seria apenas mais um erro para acrescentar a um monte deles.- Desculpe, Cammie. Não posso dar o que você quer.Ele a ouviu chorar - uma coisa que nunca ouvira dela antes -, depois ela desligou. Ele mergulhou na piscina, depois subiu à superfície e boiou de costas, tentando escolheruma constelação - qualquer constelação - no céu noturno. Procurou por um longo tempo. Mas o que estava procurando não podia ser encontrado nas estrelas
EU-EU-EU-RECLAMA-RECLAMA-RECLAMAO V não tinha placa, mas Sam sabia onde encontrar a estrada privativa que levava até a entrada. Luzinhas brancas brilhavam nos cactos junto às laterais da entrada de cascalho. Era o primeiro sinal de civilização. Depois elas fizeram uma curva fechada e encostaram numa guarita. Um homem corpulento de uniforme cáqui saiu. Não havia nada ali que identificasse o spa Veronique. Na verdade, Anna pensou que parecia mais a entrada de um retiro de uma milícia de direita.- Boa noite, senhoras - disse ele. - Nome, por favor?- Sam Sharpe - disse Sam a ele.- Um momento, por favor, srta. Sharpe. - O homem de cáqui voltou à guarita e digitou furiosamente em um computador, depois saiu novamente. - Está sendo aguardada,srta. Sharpe.Ele apertou um botão em seu beeper. De repente a estrada que passava pela guarita foi iluminada de um emocionante branco e laranja, e um portão que bloqueava o caminho se abriu automaticamente. Dois minutos depois, elas chegavam a uma grande construção sobre colunas que era meio parecida com a Casa Branca. Três belos homens vestindo camisas de golfe cáqui e azul-claras entraram em ação, abrindo portas e pegando a bagagem na mala do Jeep.- Srta. Sharpe, srta. Percy e srta. Percy, bem-vindas ao Veronique - disse o mais velho deles, que tinha bochechas proeminentes. - Levaremos sua bagagem para as suítes. Srta. Sharpe, aqui estão seus cartões.O empregado passou a Sam os cartões para os quartos.- Não tem registro? - perguntou Anna a Sam.- O V tem um arquivo de todos os hóspedes e prepara os empregados. O registro é feito por telefone. E não dê gorjeta.É cobrada na conta.Anna se espreguiçou, rígida da longa viagem, maravilhada com o frio que fazia - a temperatura não podia estar acima de sete graus. Depois ela se lembrou de que estavam no deserto em pleno inverno.- Muito bem, tudo pronto - prometeu o empregado.- Entrem e se aqueçam. E não se preocupem, a previsão do tempo para amanhã é de 21 graus.
As três garotas entraram no saguão espaçoso. O ar estava quente, as luzes, baixas. As cores na mesa de centro de orquídea selvagem captavam o lavanda claro e o rosa do piso de mármore e calcário. Obras de arte inestimáveis enfeitavam a.sparedes - Anna reconheceu um Monet, um Ticiano e um El Greco. Em vez de um balcão de registro, havia um par de mesas com placas discretas que simplesmente diziam "Assistência aos Hóspedes". Atrás da mesa, havia um enorme quadro a óleo de uma mulher que tinha de ser a própria Veronique. Tinha uma forte semelhança com a ex-mulher de Donald Trump.Susan passou o braço pelo de Anna enquanto elas atravessavam o saguão em direção a uma porta que levava aos quartos.- Ah, a vida dos jovens ricos e ociosos. Não temos essa sorte.- Na verdade temos - respondeu Anna.- Eu sei disso. Sei mesmo. - Susan apertou a mão de Anna. - Quando eu entrar numa de eu-eu-eu-reclama-reclama-reclama, bata na minha cara, está bem?- E você faça o mesmo comigo - disse Anna, abraçando a irmã. - Vai ser divertido, Sooz. Não passamos um fim de semana juntas há um tempão.- Srta. Sharpe? - Uma voz com sotaque escandinavo fez com que Anna se virasse. Uma loura espetacular num simples vestido azul perfeitamente bem cortado vinha nadireção delas.- Ingrid! - exclamou Sam. - Como você está?- Feliz em revê-la, srta. Sharpe - disse ela a Sam. Só o crachá que dizia "Ingrid Svenson" e um V simples monogramado indicavam que a jovem trabalhava no spa. - Desculpe não tê-la recebido ao chegar. O jantar será servido até as dez no Salão Versalhes, ou podem comer no quarto, se preferirem. Srta. Sharpe, está na suíte Marilyn, srta. Anna Percy, na suíte Bette, e srta. Susan Percy, na suíte Rita. - Ela gesticulou para o outro lado do saguão. - Seus quartos ficam depois do pátio e da piscina, passando por estas portas duplas. Uma caminhada curta. Ou podemos ligar para Paolo para que traga o carro de golfe aqui.Antes que uma das meninas pudesse responder, uma voz ele mulher gritou: "Ei, vocês!"
Cammie Sheppard.Anna ferveu. Que diabos Cammie Sheppard estava fazendo aqui? Ela percebeu que Sam não pareceu nada surpresa. Cammie beijou Sam e Susan sem nem encostar as bochechas. Anna, ela ignorou.- Que ótimo, Susan - exclamou Cammie. - Eu não sabia que você vinha.- Não sabia que você estaria aqui também - admitiu Susan.Cammie apontou um dedo brincalhão para Sam.- Que menina má. Sabe que deve me contar tudo.- Por acaso Sam também não me contou isso - observou Anna, a voz fria.Os olhos de Cammie dardejaram para Anna. Ela bocejou.- Ah. Oi, Anna.- Quando você planejou tudo isso? - perguntou Anna a Sam num sussurro.- Cammie, Dee e eu marcamos semanas atrás - admitiu Sam.- Você não me contou.- Elas não vão atrapalhar em nada. A gente veio a trabalho, elas vieram por prazer.- Dee está aqui? - perguntou Anna.Enquanto as portas duplas se abriram, a voz petulante de Dee respondeu à pergunta de Anna.- Uau, oi, meninas! Vai ser muito divertido! Em que quartos estão? Querem jantar?A cabeça de Anna começou a latejar.- Preciso desfazer as malas - disse ela. - E precisamos ver o roteiro, Sam.- Não precisa ser neste exato momento, precisa? - perguntou Sam.- Anna - suspirou Cammie. - Não dá pra ver que estamos nos esforçando? Esse é nosso jeitinho de dizer que gostamos de ficar com você.- Eu realmente não estou com muita fome, então vejo vocês todas depois. Susan? Quer vir comigo?Susan deu de ombros.- Sinceramente? Estou faminta.- Vamos jantar no pátio - sugeriu Sam. - Aquele garçom gostosão da Dinamarca ainda está aqui? Qual é o nome dele mesmo?- Ulrik - respondeu Cammie. - Está aqui, sim, e ele vive para servir. Dia e noite - acrescentou ela como quem sabe das coisas. - Está trabalhando nesse momento, naverdade.Susan virou-se para Anna.- Importa-se?Sim, Anna queria dizer. Mas parecia tão ... fútil.- Faça o que quiser. Está tudo bem.- Vamos ver o roteiro depois, Anna - garantiu-lhe Sam.
- Tudo bem. Acho que é melhor assim. Vou ter um tempo a mais para reescrever umas coisas - acrescentou Anna de forma pouco convincente, uma vez que não tinhacerteza de que o que precisava fazer era reescrever. Ela pediu Iicença e pegou o curto caminho que passava pela piscina até chegar a um prédio de dois andares construído em tons de ('erra claro com uma fachada de adobe. A dúzia de quartosno prédio estava listada em ordem alfabética em uma placa de madeira; Anna viu que o dela ficava no primeiro andar, mais perto das montanhas. Ela passou o cartão de acesso na máquina de autorização instalada na porta, depois esperou que a luz verde acendesse para que pudesse entrar.A sala de estar era toda branca: tapete felpudo, sofá de veludo e poltrona. Um vaso de rosas brancas estava no meio da mesa de centro. Ao lado dele, havia uma tigela branca cheia de frutas frescas. Anna foi até o quarto. Em cima da ama branca de dossel, estava pendurado um quadro de Bette Davis usando um sarongue branco.Anna foi ao banheiro, também todo branco. Havia uma banheira funda o bastante para nadar e larga o suficiente para quatro, e um vaso de cristal com pétalas de rosa para colocar na água, se ela quisesse. No toucador de mármore branco, uma gama de miniaturas de produtos de beleza, perfumes e óleos, xampus e condicionadores, cada um deles em um frasco branco com um V dourado. Um bilhete manuscritodirigido a Anna e assinado por Ingrid explicava que eram cortesia do Veronique e que, é claro, todos estavam disponíveis para compra na loja de presentes do spa. Ou Anna podia encomendar pela TV interativa do quarto.Anna lavou o rosto com a Emulsão Brilho Suave, cortesia da Veronique. Tinha cheiro de petúnia e almíscar - enjoativo demais para o gosto de Anna. Ao lado da cama, havia uma pasta de couro branco com o familiar monograma em V. Anna abriu-a; continha uma descrição detalhada dos intermináveis serviços que o Veronique oferecia aos clientes.
Ela passou para a seção de massagem - trinta segundos na presença de Cammie e Dee a haviam deixado tensa. Uma massagem parecia ótimo. Havia uma hidromassagem marinha mineral. Massagem tailandesa. Massagem esportiva comóleo de cedro. Massagem de rocha vulcânica quente. Massagem de ilangue-ilangue a quatro mãos. Quatro mãos? Anna desfez as malas e sentou-se no sofá para pensar num título para seu roteiro. Exatamente aí ouviu uma discreta batida na porta. Quando Anna a abriu, Dee estava parada ali, segurando uma garrafa de champanhe e duas taças.- Posso entrar? - perguntou ela.A boa educação venceu novamente, e foi por isso que Anna concordou.Dee entrou e olhou em volta.- Vau, que lindo. Estou no Madonna. O Madonna é muito colorido. Mas o Bette Davis é tão calmante. Meio virginal. Sabe como é, todo branco. Não que Bette Davis fosseuma virgem. Quer dizer, ela foi casada e tudo.- Eu não sei muita coisa sobre ela - disse Anna, incapaz de entender por que Dee estava lhe fazendo uma visita. Dee gesticulou para o sofá.- Importa-se?- Alguns minutos, tudo bem - disse Anna. - Estou meio cansada. E preciso trabalhar no meu ... - Ela gesticulou para o roteiro na mesa de centro.- Conheço um herborista que pode dizer por que você está cansada só de lavar seu cabelo - disse Dee enquanto colocava a garrafa e as taças na mesa de centro. - E aí, estou aqui tipo com uma proposta de paz.- Não estamos em guerra, Dee.- É, mas... - Dee afastou as mechas desgrenhadas da testa. - Sam não te contou que a gente vinha aqui, né?Anna foi se sentar na poltrona.-É.- A gente sempre vem aqui depois das férias. Sabe como é, meio que uma desintoxicação. Ah, por falar em desintoxicar, eu soube que a sua irmã acaba de sair da reabilitação. Isso é bom.A cabeça de Anna começou a latejar novamente.- Eu não quero discutir. ..- Não, tem razão, desculpe - disse Dee rapidamente.- Sabia que a Cammie fingiu que estava na reabilitação também para que sua irmã se sentisse melhor? Não é gentil?
Anna não tinha idéia do que Dee sabia sobre a Susan. Não que ela estivesse surpresa. Por outro lado, conhecendo a Dee, ela podia estar inventando tudo com a mesma facilidade com que dizia a verdade.- Duvido que Cammie tenha feito alguma coisa gentil na vida, Dee.- No fundo, ela é muito legal - insistiu Dee. - Mas depois que a mãe dela morreu, ela ficou muito dura por fora. Mas onde é que eu estava mesmo? Eu meio que queria medesculpar. Porque apareci assim, sem avisar.- Não é culpa sua. Sam devia ter me contado.- É. Ela sabe que você odeia a gente. Eu sei que você disse que não, mas não admitir sua raiva é tóxico para o corpo, então eu queria que você simplesmente, sabe como é,dissesse isso. Mas acho que começamos com o pé esquerdo. Especialmente agora que você e Ben são parte do passado. E foi por isso que achei que a gente podia fazer um brinde. Pelo recomeço.- Não devia ter cuidado com a bebida, Dee? - perguntou Anna incisivamente.Ah, quer dizer. .. - Dee bateu na barriga. Ela ergueu a garrafa. - Cidra com gás. Sem álcool. - Ela abriu a garrafa, serviu as taças pela metade e passou uma para Anna. - Auma nova amizade.Anna fez um gesto de brindar, depois tomou um gole da cidra.- Então... foi, legal você ter passado aqui. Mas tenho certeza de que as outras estão sentindo a sua falta.Se tivesse lido o Grande Livro É assim que fazemos, edição especial para os bem-nascidos da costa leste, Dee saberia que "Tenho certeza de que as outras estão sentindo a sua falta" era um código para "Por favor, saia daqui".Infelizmente, Dee não era tão bem informada.Ela se recostou nas almofadas do sofá.- Não estou mais com fome. Fiz uma drenagem linfática há uma hora e parece errado comer depois disso. Sabe de uma coisa, você devia pensar em fazer uma sessão de renascimento comigo amanhã. É tão assombroso. Você entra nua na piscina aquecida...- Estarei ocupada fazendo o filme com Sam.O lábio inferior de Dee caiu.- Ah. Tudo bem. Só pensei que talvez pudéssemos ser amigas.
- Talvez a gente possa, Dee. Vai levar tempo.Dee assentiu solenemente.- Meu Deus. Como é ser você?Anna ficou surpresa.- Como?- Quer dizer, você é tão perfeita. Eu fico me perguntando como é ser assim.- Dee, eu não sou perfeita.- É sim. Você deve ter feito alguma coisa realmente grande na vida passada para ter tanta sorte nessa vida. É por isso que Ben está com você e não comigo. Acha que você e Ben estavam juntos na vida passada?- Não tenho a menor idéia.- Pode ser. - Dee bebeu a cidra com gás. - Isso explicaria tudo. É o destino.Anna pôs a taça de champanhe na mesa de centro.- Dee. Se quer ser minha amiga, pode pelo menos ser sincera comigo?- Quer dizer sobre...?- Dee pôs a mão na barriga novamente. Depois desviou os olhos. - Não quero falar disso.- Mas você disse que queria ser minha amiga. - Anna decidiu pressionar. Se tinha que ficar sentada ali com aquela garota bizarra, podia pelo menos tentar esclarecer algumas coisas do quebra-cabeça enlouquecedor. De certa forma, suadecisão sobre Adam e Ben tornava isso mais fácil.- Eu quero.- Ben me disse que nem tem certeza se aconteceu alguma coisa naquela noite.Os olhos de Dee ficaram do tamanho de dois frisbees.- Ele disse isso?- Não é que ele não se importe com seus sentimentos, ele só bebeu demais naquela noite e a memória dele não está clara.Lágrimas encheram os olhos de Dee.- Então não significou nada?Tudo bem, a menos que Ben fosse um completo mentiroso, essa garota estava seriamente biruta.- Talvez você tenha baseado o que aconteceu entre vocês dois numa coisa que na verdade não existiu.Dee piscou rapidamente.- Vocês dois estão apaixonados. Eu sei disso.- Eu não estou apaixonada por ele. Acabou tudo. O que quer que seja esse "tudo".Dee suspirou.- Sua aura está dizendo outra coisa. Bom, só o que tenho que dizer é que, na próxima vida, quero voltar como você. - Ela se levantou e andou lentamente até a porta, a cidra esquecida.Mas que estranho. Será que Dee tinha bebido? Em caso afirmativo, ela precisava parar. E em caso negativo, talvez ela devesse beber alguma coisa. De preferência alguma coisa receitada por um psiquiatra. Quando chegou à porta, Deese virou.- Só diga a ele que o bebê e eu não vamos precisar de ajuda financeira. Mas Ben Júnior ou a pequena Delia definitivamente vão precisar de apoio emocional. - Depoisela fechou a porta atrás de si, deixando Anna encarando a placa que explicava o que fazer em caso de incêndio ou terremoto.Bom, isso protege de desastres naturais, mas o que as pessoas devem fazer numa realidade alternativa? Enquanto preparava um banho quente, a imaginação deAnna tomou conta dela. Ese Dee estivesse dizendo a verdade? E se ela estivesse mesmo carregando um filho de Ben? Anna nunca seria capaz de olhar para aquela criança sem lembrar de Ben e de toda a dor que causou a ela. Que fardo pavorosopara uma criança inocente carregar.Mas enquanto acrescentava espuma de grife ao banho,Anna se obrigou a desprezar aqueles pensamentos horríveis. Depois de se deitar na banheira enorme e espalhar preguiçosamente pétalas de rosa na água, era fácil deixar que os pensamentos vagassem para uma direção diferente. Se havia uma banheira que gritava "banho para dois", era essa. De certa forma, ela já sentia falta de Adam. Sempre se sentia ótima quando estava com ele. Mas isso não era motivo para deixá-lo quando desejava outro cara.Não. Banho para um definitivamente era uma idéia muito melhor.
RESERVASam Sharpe vasculhou o closet - um cômodo inteiro ao lado de sua suíte - tentando decidir o que levar para o spa. O segredo era encontrar um traje de banho que acentuasse os aspectos positivos. E eliminasse os negativos. Sam tinha um preto da Calvin Klein com um debrum pequeno na calcinha. Era ótimo para cobrir suas coxas, mas o detalhe em metal a fazia parecer a Barbarella. Sempre haviaa fórmula menos-é-mais - às vezes, mostrar mais pele criava uma ilusão de ótica. Desviando a atenção de todos para os peitos, as falhas sempre eram dissimuladas.Droga! Já eram quatro da tarde e ela disse a Anna que a pegaria às quatro emeia para seguirem de carro até Palm Springs. Com sorte, elas iam escapar do engarrafamento por causa do rush da tarde.O que vestir, o que vestir, o que vestir? Era improvável que houvesse algum solteiro interessante no Veronique. Sim, havia os cassinos indígenas em Palm Springs e montes de campos de golfe. Cassino mais golfe é igual a homens. Mas Sam odiava golfistas - só as roupas eram o suficiente para lhe dar náuseas - e os cassinos eram estritamente vagabundos comparados com, digamos, o Bellagio de Las Vegas. Cassinos vagabundos atraíam homens vagabundos, e Sam não tinha interesse em homens vagabundos. Nem em mulheres.Nem em mulheres? Que diabos essa ideiazinha estava fazendo na sua cabeça? Mas ela sabia a resposta - uma palavra de quatro letras começada com A. Anna.
Tudo bem. Então Sam tinha uma quedinha. Era bonitinho, na verdade. Se as menininhas podiam ter paixonites por menininhas, então as crescidinhas podiam ter paixonites por crescidinhas. Isso não queria dizer nada.Como que para provar este argumento, ela elaborou uma lista mental de homens gostosos. Bom, havia o Ben, é claro, seu primeiro amor. E depois havia ...hmmm ... vamos ver. Os irmãos Pinelli. Os dois iam ao V no sábado de manhã para ajudar no filme. Monty não fazia o tipo de Sam, mas Parker era realmente um colírio. Ainda assim, Sam suspeitava de que ele se amava demais para ter tempo para qualquer outra pessoa.Tinha que existir alguém além de Ben. Mas, estranhamenIe, ninguém veio à mente. Ela preferia fazer uma massagem em Anna do que em algum cara suado e peludo que conhecessena sauna tentando enfiar a língua em sua orelha e...Ah, que merda. Ela preferia fazer uma massagem em Anna?Ela sabia que tinha de pensar em outra coisa, então se concentrou em sua bagagem. Sam pegou o único maiô de que gostava, da Gottex, mais jeans, shorts e uma seleção de camisetas Versace e Pucci, e atirou tudo na mala de couro coach azul-clara que estava em cima da cama. Roupa de baixo também. Enquanto lutava com o zíper, o telefone na mesinha-de-cabeceira tocou.- Hein? - atendeu ela.- Oi, Sam, é a Anna.- Oi, Anna - disse Sam, com o cuidado de manter o tom de voz animado. - E aí?- Estou no bangalô da minha irmã no Beverly Hills Hotel. Então você não precisa me pegar na casa do meu pai. A gente pode encontrar você no saguão.- Tudo bem.- Tem certeza de que não quer usar dois carros? Porque não tem problema nenhum. Podemos ir no Mustang da Susan.- Não. Monty e Parker vão levar todo o equipamento na van. Vai ser mais divertido para a gente ir num carro só. Então, vejo vocês daqui a pouco.- Sam? Eu terminei o roteiro. Fiquei acordada a maior parte da noite trabalhando nele.
- Otimo. - Sam tentou parecer empolgada. - Quando vou poder ver? Você devia me mandar para eu fazer as anotações.- Posso ler para você no carro, se quiser.- Vou ler eu mesma quando a gente estiver lá. Eu estarei aí em, deixa eu ver, meia hora.Sam desligou, mordiscando o lábio inferior. Uma coisa era ter uma quedinha por Anna e outra era se tornar a chefe de torcida da nova carreira de roteirista dela. Todo executivo de estúdio de Hollywood tentava transformar sua namorada gostosona em roteirista ou produtora. Era ridículo. Bom, Sam tinha escrito um roteiro de reserva, só para garantir. Não foi difícil. Em vez de contar uma história completa - o queé difícil de fazer em dez minutos -, ocorreu a ela fazer tudo no estilo de um episódio comemorativo do Entertainment Tonight sobre um personagem tipo Jay Gatsby, mas com uma revelação chocante no final. Sim, Sam daria uma olhada no roteiro de Anna. Esperava que fosse bom. Mas era mais provável que não fosse.Sam terminou de preparar a bagagem, enfiou as malas no Cherokee do pai e seguiu para o hotel para pegar Anna e a irmã dela. O trânsito desta vez estava tranqüilo, então ela chegou lá às quatro e meia, como combinado. Anna e Susan esperavam na entrada do hotel, as malas ao lado do porteiro noturno, o que deu a Sam a oportunidade de checar Susan enquanto ela se aproximava. Cammie tinha contado tudo sobre Susan a Sam, é claro. De acordo com Cammie, a irmã de Anna, Susan, era a garota-propaganda da namoro.com e tinha se internado na reabilitação mais vezes do que a Whitney Houston. Certamente ela parecia se encaixar no papel, vestida com uma camiseta preta habilmente rasgada, calças de camuflagem de cós baixo e uma jaqueta de motoqueiro de couro preto. Usava batom vermelho e um monte de delineado r nos olhos e tinha uma leve semelhança com Marilyn Monroe.Então evidentemente a irmã mais velha de Anna ia atacar de dinamite sexual. Ia dar certo.
Enquanto o porteiro colocava a bagagem na traseira do Jeep de Sam, Anna apresentou Sam a Susan. Susan ofereceu a mão a Sam.- É um prazer - disse ela num tom perfeitamente modulado que entrava em choque com a aparência de durona."Engraçado", pensou Sam. "Dá pra tirar uma garota do Upper East Side de Manhattan, mas não dá pra tirar o Upper East Side de uma garota." Ou colocá-lo numa garota, aliás, se ela não o tiver. É claro que algumas pessoas tentavam. MasSusan e Anna eram de verdade.Anna sentou-se na frente, Susan atrás, e Sam arrancou para a avenida Sunset. Enquanto iam para a estrada Freeway 101, Sam perguntou a Susan se ela estava interessada em ajudar no filme.- Trabalho de escola? - perguntou Susan com desdém. - Definitivamente não.Sam ficou surpresa. Quem diabos era Susan para desprezar um trabalho de escola? A pessoa que ia fazer o "trabalho de escola" estava em vias de se tornar uma cineasta realmente famosa. Além disso - se ligaaaa!-, ela era filha de Jackson Sharpe.- Na verdade ... Susan, né? - disse Sam dirigindo-se ao banco traseiro. - Um curta meu entrou no Independent Film Channel no ano passado, Susan - disse Sam. - TalvezAnna tenha contado que meu pai é Jackson Sharpe. Ele vê todos os meus filmes. Então, nunca se sabe.- Eu adoro o seu pai - disse Susan. - Especialmente em O último patriota. Acho que vi todos os filmes dele.Então tá. Solte o nome mágico de Jackson Sharpe e elas sempre vêm correndo.- Obrigada - disse Sam, olhando Susan pelo retrovisor.- E aí, mudou de idéia?- Claro que não.Não? Sam não estava acostumada com "não". Em geral, todo mundo que ela convidava para participar de seus filmes dizia sim. Até garotas que a odiavam diziam sim. Era uma espécie de doença de Los Angeles, onde todo mundo pensava estava a ponto de se tornar uma estrela. Mas Susan ercy não podia ser mais desinteressada. E agora Sam podia er pelo retrovisor que Susan estava enfatizando sua recusa se recostando no banco e fechando os olhos.
"Bom, ela que vá pro inferno", pensou Sam, vendo o jeito queria -que- fosse-1977 -e-eu -namorasse- um -Sex-Pistol de Susan. Que música deixaria essa garota mais irritada? Ela vasulhou os CDs, encontrou um velho disco do Frank Sinatraque o pai adorava, e ela detestava, e o colocou. A introdução de cinco notas repetidas de "New York, New York" berrou no Cherokee.Sam olhou pelo retrovisor. Os olhos de Susan se abriram por um brevíssimo segundo, depois se fecharam de novo.Touché.Na verdade, essa era a única música de Sinatra que Sam realmente gostava. No bar mitzvah de Ben, a banda tinha tocado essa música, e Ben dançou com ela. Era uma lembrança bonita.- Gosta dessa música? - perguntou ela a Anna.- Não muito - admitiu Anna.- É do meu pai - confidenciou Sam. - Minha madrasta adolescente gosta de cantar pra ele. É tortura auricular. Sabe omo ela começou no ramo?-Não.Sam mudou de pista - estavam se aproximando da entrada da via expressa - depois abaixou o volume da música.- Ela era caloura no Santa Monica College, um cara a viu correndo no meio da avenida San Vicente e disse que ela podia ser uma estrela. Ela se mudou para a casa dele eele a colocou no elenco como uma fugitiva de uma série doShowtime.Sam olhou para Anna, que parecia completamente desligada, depois de volta para a estrada. Ela percebeu que estava tagarelando nervosamente, como se as duas estivessem no primeiro encontro.- Não tenho idéia de por que estou contando isso. É uma chatice, eu sei.- Desculpe - disse Anna. - Eu só estava pensando na festa que tenho de ir no domingo à tarde para meu estágio na Apex. Acho que devo levar um cliente deles.- A festa dos Steinberg? Sei tudo sobre ela. Eu também vou - disse Sam.- Mundinho pequeno, esse - comentou Anna.- Não é muito diferente de onde você veio. A mesma bosta em pratos diferentes.- Tem razão - reconheceu Anna. Ela se virou para a irmã no banco traseiro. - Você vai à festa comigo amanhã, não é?
- Ainda estou sofrendo com o fato de o pretenso idiotinha ter ficado famoso - disse Susan sem abrir os olhos. - Meu Deus, ele costumava ofegar quando me beijava. Masque grossena.- Vou considerar isso um sim - disse Anna.Sam queria continuar a conversa, mas Anna fechou os olhos. Alguns minutos depois, ela estava dormindo. Ela parecia tão calma e serena que Sam não suportou a idéia deinterromper seu cochilo. Então ela calou a boca e dirigiu.Para Anna, a viagem de três horas pelo deserto parecia interminável. Ela praticamente cochilou o tempo todo, perguntando-se se tinha feito a coisa certa dando um tempo com o Adam. Ela ainda podia ver a dor no rosto dele. Susan dormiu na maior parte da viagem e Sam ouviu uma música que Anna realmente não gostava. Mas elas finalmente chegaram nos arredores de Palm Springs, passando entre duas imensas extensões de moinhos de vento para geração de energia que se espalhavam dos dois lados da estrada. Havia centenas deles, iluminados por holofotes, girando loucamente no vento tempestuoso do deserto. Entre eles, havia placas anunciandocassinos indígenas.- Cassino Morongo. - Da traseira, uma Susan recém desperta leu em voz alta um dos cartazes. - A gente devia matar o spa amanhã à noite e ir lá.Anna ficou tensa. "Lá vamos nós de novo".- Essa não é uma idéia muito boa, Sooz.- Credo, Anna, eu posso beber Red Bull ou coisa pareida. Acabei de sair da reabilitação - acrescentou Susan, para deleite de SamArma queria que Susan tivesse guardado esse último comentário para ela mesma. Houve uma época em que Susan era ainda mais reservada do que Anna.- O que é que está pegando? - perguntou Sam, perebendo a reação de Anna. - Metade das pessoas que eu conheço está na reabilitação. A outra metade acaba de sair.- Ela olhou pelo retrovisor lateral e depois passou suavemente para a pista de entrada.Um exagero, obviamente, mas Anna pensou que era bem característico de Sam tomar uma atitude tão otimista.
- Eu que o diga - concordou Susan. - E aí, pronta pra uma rapidinha nos dados e nos homens, Sam?Os olhos de Sam fulminaram Anna, depois voltaram à estrada. Ela sentiu o desconforto de Anna com o fato de a irmã ficar num ambiente tão ensopado de álcool como um cassino.- Sabe como é, Susan, só vamos ficar pelo spa. As pessoas se matam para conseguir uma reserva no V. Você devia aproveitar. E as massagens são incríveis.- Dá pra conseguir uma boa massagem em qualquer lugar. - Susan se inclinou para a frente e puxou uma mecha do cabelo de Anna. - Vamos lá. Vamos nos divertir. Vai teajudar a tirar o Cara das Flores da cabeça.O estômago de Anna se revirou. Tarde demais, ela percebeu que devia ter dito à irmã para não falar nada de Ben ou Adam para Sam - porque Sam parecia ser estranhamente obcecada pela vida amorosa de Anna.Nos velhos tempos, ela podia ter contado com a discrição de Susan. A discrição daquela época não estava mais no vocabulário da irmã.- Cara das Flores? - ecoou Sam.- É, é uma doideira - disse Susan a Sam. - O cara mandou centenas de rosas para Anna.- Adam Flood? - supôs Sam.- Ben qualquer coisa - completou Susan. - Ouvi dizer que é um babaca.- Ben? - ecoou Sam, incrédula. Ela desviou os olhos da estrada e olhou para Anna. - Pensei que vocês tivessem terminado. Ele te mandou flores de Princeton?- Hmmm ... ele ainda pode estar em Los Angeles - murmurouAnna, tentando desesperadamente pensar numa forma de mudar de assunto sem parecer óbvia. Agora Sam agarrava com força o volante e olhava diretamentepara a frente.- Acho que ele quer voltar com você.Anna deu de ombros. Sam parecia levar isso muito a sério ela não tinha idéia do motivo. Era só por causa da Cammie? Ela decidiu mudar de assunto.- Vamos falar do nosso filme, tá legal? Posso ler pra você...- Anna foi inteligente em dar o fora nesse cara. - Susan forçou a barra, aparentemente sem perceber o desconforto da irmã ou talvez por isso mesmo. - Os galinhas são uns merdas.
- É- ecoou Sam. - Você fez bem em dar o fora nele."Mas... não foi ontem mesmo que Sam falou que Ben era um cara ótimo?" Anna pensou em lembrar Sam disso. Mas não o fez.- Se as duas não se importam, eu realmente prefiro não falar dele. Nem do Adam. Nem de nenhum outro cara, aliás.Susan riu.- Está brincando, né?- Não. Falo sério. No momento não estou nada interessada em homens.O coração de Sam deu um salto. "Anna não está nada interessada em homens?" Será que estava mandando um sinal a Sam? Ou era só a imaginação febril de Sam? E mesmo que estivesse mandando um sinal, Sam não tinha muita certeza do que devia fazer com isso. Sam nunca pensava muito no passo seguinte. Será que deveria ficar sozinha com Anna num canto escuro e avançar? A idéia era esquisita demais parasequer pensar nela. Sam estava ficando fora de si. O que precisava era de maisinformação.- Então no que está interessada, hein? - perguntou Sam, da forma mais casual que pôde.- Em nosso filme - disse Anna a ela. - E em mim. Pra variar.Ah. Então foi isso que ela quis dizer. Sam sorriu de alívio. Ainda não estava pronta para chegar lá. Ainda.- Por mim, tudo bem.Susan assentiu.- Se importa se eu fumar? - perguntou a Sam.- Os pulmões são seus - disse Sam a ela.Susan colocou um cigarro entre os lábios, acendeu e abriuum pouco a janela.- Esquentar o banco de reservas é uma idéia desagradávelaté pramim.Sam girou, quase esbarrando no próprio ombro.- O que foi que você disse?- Eu não culpo a Anna - disse Susan, fazendo uma careta e exalando um anel de fumaça. - Quem quer ser o reserva de outra pessoa? Primeiro veio a Cammie, depois a Dee.Sam empalideceu. Dee nunca falou claramente que tinha ficado com Ben.- Dee?De jeito nenhum. Não consigo acreditar que Ben... Como poderia...? E depois te mandar flores suficientes para cobrir a Parada das Rosas ...- Ben é... - Anna parou. Estava prestes a dizer a Sam o que tinha acontecido com ela e Ben na véspera de Ano- Novo.
Mas ela já havia falado disso com Susan. Será que tinha que envolver Sam? Anna pensou na mais próxima e mais querida amiga de Sam - Cammie Sheppard, uma garota que Alma tinha certeza absoluta de que meteria uma estaca no seu coraçãoe daria gargalhadas enquanto sangrasse. Que dirá seu coração das trevas.E no entanto Anna realmente queria ter uma amiga em LosAngeles. Ela precisava de uma amiga em Los Angeles. Sam era a única candidata ao cargo. Anna pensou em sua longa amizade com Cyn em Nova York. Cyn definitivamente tinha amigas que Anna não suportava, mas Anna achava que isso não depunha contra ela. Por que para Sam o padrão seria diferente?- Hein? - insistiu Sam.- Ah, conta pra ela - disse Susan. - Sei que nossos pais são o rei e a rainha do Fique de Boca Fechada o Tempo Todo, e nenhum dos dois é feliz."Talvez Susan tenha razão", pensou Anna. "Além disso, eu não fiz nada de medonho."- Sam - começou Anna -, gostaria que você não contasse a Dee e Cammie o que vou te dizer agora.Sam riu.- Eu não conto a elas nem o que acontece na minha vida, ainda mais na sua.Então Anna informou Sam, indo até a desculpa ridícula de Ben por ter abandonado Anna para salvar a vida de uma elebridade misteriosa que era amiga dele.- E isso - concluiu Anna - é toda a historinha sórdida.Na verdade, não era. Ela deixou de fora detalhes sobre o que tinha - ou não tinha - acontecido no barco logo depois da meia-noite. O status de sua virgindade era uma coisa que ia continuar privada.- Meu Deus - sussurrou Sam. - Um filme e tanto.- Sei que Ben é seu amigo, Sam. Mas talvez você não o conheça tão bem como pensa. Minha teoria é que ele só me quer de volta porque eu caí fora.Sam pareceu pensativa.- Talvez.- Talvez? - repetiu Anna. - Você não acreditou nessa história, né?- Bom, ele conhece um monte de atrizes - disse Sam enquanto o centro de Palm Springs finalmente aparecia a distância. - Metade das garotas da Warner Brothers eram da Beverly Hills High.
Susan chegou para a frente no banco.- Então de quem ele é amigo?- Deixa ver. .. - Sam mordiscou o lábio inferior. - Fomos na festa de Natal da House of Blues no ano passado e ele foi com aquela garota do Smallville, não lembro o nome dela.- Desculpe, não vejo muito TV - disse Anna.- Tudo bem. Estou tentando pensar em mais alguém... - refletiu Sam.- Alguém que ninguém acreditaria que é drogada - acrescentou Susan ansiosamente.Anna não conseguia acreditar. Sua irmã havia estado na festa de aniversário de 18anos da princesa de Jarudi representando sua mãe, Jane Percy, porque a rainha tinha ido para o internato com Jane. Ela se sentou no camarote real no torneiode tênis de Wimbledon. E agora Susan estava brincando de adivinha-quem -é-a -celebridade-drogada -de- Ben?Talvez fosse alguma coisa na água da costa oeste.- Tá legal. Pouca gente sabe disso - começou Sam, a voz baixa apesar do fato de só as três estarem no carro. - Mas depois que Ben e Cammie terminaram, uma certa atriz muito famosa... ela estava num seriado que todo mundo sempre via e se casou com um certo ator muito famoso... ele é louco por ela... conheceu o Ben numa festa. Ela teve uma briga com o marido porque achava que ele estava fumando maconha, então ela foi à festa sem ele. Ela não sabia que Ben ainda estava no segundo grau. Uma coisa levou à outra ...- Como você sabe disso tudo? - perguntou Susan.- Pelo amor de Deus, Susan, era a minha festa. E as mesmas pessoas vão estar na festa dos Steinberg. Dá pra imaginar que ela ficou toda transtornada por Brad fumar bagulho quando ela é que tem o problema? - perguntou Sam.- Brad? - repetiu Susan. - Você disse Brad? De Brad...- Pára. Pode parar por aí - pediu Sam. - Eu nunca dedurei meus amigos. Eu só deduro os amigos dos outros. A conversa continuou nesse filão. Anna não participou,mas, certamente, ouviu. E ficou divagando. E se Sam estivesse certa? E se Ben realmente tivesse contado a verdade? Não. Isso não importa mais.
"Sim, importa", disse uma vozinha insistente no fundo de sua mente, "porque quando você dormiu agora há pouco, sonhou com ele."
MAS...- A paixão é o estado inicial de amor ou desejo, quando uma pessoa acha a outra perfeita - explicou a sra. Breckner.- Basicamente, estamos falando de desejo sexual. Gatsby desejava Daisy, mas chamava de amor. A diferença entre as duas coisas é...A aula da sra. Breckner foi interrompida pelo sinal. Anna suspirou. Na verdade, ela estava interessada em ouvir o que A professora pensava ser a diferença entre as duas coisas. Ela ficou acordada a noite toda, revirando-se na cama, tentando deduzir o que ela devia dizer a Adam, se dissesse alguma coisa.Talvez o que sentisse por Ben fosse só desejo e isso estivesse contaminando seu julgamento.Ela jogou o caderno na mochila e passou-a pelo ombro, depois saiu da sala de aula com todos os outros. Adam eslava encostado nos armários do lado de fora da porta. Ela o evitara o dia todo.- Oi, estranha - disse ele, e deu aquele sorriso torto e doce dele. Ele foi para o lado dela e os dois desceram o orredor. - Não nos vemos há muito tempo. E aí, o quetá rolando?- Não muita coisa. - Anna tinha dificuldade de olhar Adam nos olhos. - Quer uma carona pra casa?- Quero, claro. - Ele manteve a porta aberta para ela. Era uma tarde rara de um céu nublado e melancólico. Adam franziu a testa. - Ei, está tudo bem?- Está. Só ando pensando muito. - Ela podia ouvir como parecia tensa, como estava superficial.Foi só quando eles estavam dentro do carro que Adamfalou novamente. Ela estava prestes a girar a ignição quandoele pôs a mão na dela e a fez parar.- Não é preciso ser telepata para entender que tem alguma coisa errada com você, Anna. Se tem alguma coisa a ver comigo...Anna ficou olhando para as próprias mãos no colo. Isso era horrível. Mais horrível do que ela imaginou que seria.
- Ah, droga, tem alguma coisa a ver comigo - disse Adam. Ele esfregou a tatuagem de estrela atrás da orelha.- Você sabe que eu gosto de você, Adam. - A voz de Anna era baixa e intensa. Ela se obrigou a olhar para ele. - Você é um dos melhores caras que já conheci.- Tem um "mas" de merda vindo por aí, não é? - conjecturou Adam. - Tipo assim, "mas Ben e eu voltamos".- Não. Não voltamos.- Ufa - Adam suspirou. - O que é, então?- Eu não ... Eu ... - Anna não conseguia encontrar uma forma de dizer isso sem magoar Adam era a ultima coisa mundo que queria fazer. -Eu me sinto muito confusa com os homens atualmente - disse ela por fim. - Eu só não acho que possa ter um relacionamento agora.- Se eu estou indo rápido demais...- Não é isso - garantiu Anna a ele. - Fui eu que te beijei, lembra? Eu só acho que preciso de algum tempo para mim. Eu me importo com você. Muito. E não quero temagoar...- Peraí, você está terminando comigo porque não quer me magoar? - perguntou Adam. - Isso não é lá muito lógico.- É- concordou Anna. Ela passou um dedo no volante. - Estou lidando muito mal com isso. Ben ... me magoou. Não vou fingir o contrário. Fui uma idiota em deixar que eleme magoasse, mas... aconteceu. E acho que preciso superar isso, e aprender algumas coisas sobre mim mesma, antes de me envolver em outra relação. Isso faz algum sentido?- Na verdade, não. - Adam apoiou a cabeça na porta do carro. - Droga! Quer dizer, eu sei o que devia dizer: "Tudo bem, tá legal, dê o tempo que você precisar"; mas, francamente, não é assim que eu me sinto. Não é como se a gente etivesse namorando sério...- Eu sei disso. Só preciso ficar sozinha um tempo. Vou para o deserto com a Sam nesse fim de semana tentar organizar as coisas na minha cabeça.- E quanto tempo vai levar pra você "organizar as coisas na sua cabeça"?- Eu não sei, tá legal? - Anna ouviu a aspereza na voz dela. Ela não esperava que Adam a pressionasse desse jeito.
- No momento sou uma oportunista terrível, Adam. E isso não é justo com nenhum de nós.Adam ergueu as palmas das mãos.- O que posso dizer?- Eu lamento muito - disse Anna, e ela foi sincera. - Eu realmente me importo com você. Talvez, no futuro ...- O que eu devo fazer, esperar que você telefone?- Não. Deve encontrar uma garota que mereça você. Porque você é incrível.- Ah, é, ótimo - resmungou Adam. - Esse é o fora mais legal do mundo. - Ele passou a mão no cabelo eriçado. - Faça o que precisa fazer, então.Anna assentiu e deu a partida no carro. Ela arrancou do estacionamento. Em silêncio, eles foram para a casa de Adam. Quando ela chegou na entrada de carros, ele se virou para ela.- Não estou exatamente orgulhoso de como lidei com isso, Anna. Se você precisa de um tempo sozinha, então precisa de um tempo sozinha.Ela teve vontade de abraçá-lo, ele era tão doce. Por que ela não podia ser apaixonada por ele? Por que a droga do seu coração era tão completamente torto?- Obrigada - disse ela. - Por entender.- Então eu vou tomar um monte de duchas de água fria e vamos ver o que acontece. - Adam saiu do carro e foi para o lado do motorista. Ele falou com Anna pela janela aberta.- Bowser vai reagir muito mal a isso, sabe como é.Anna assentiu. Foi só o que conseguiu fazer. Adam deu um meio tchau e ela recolocou o carro na rua. Adam ainda estava olhando-a quando ela se afastou. Se ela imaginou que ia se sentir melhor depois de terminar com Adam, imaginou errado. Porque agora Anna se sentia pior do que nunca. Por que as mulheres parecem muito mais obcecadas pelos homens do que os homens são obcecados pelas mulheres? Anna precisava tirar Ben e Adam da cabeça totalmente e substituí-los por alguma coisa que dissesse respeito a ela, e não a eles.Ela tomou uma decisão repentina e entrou à direita na avenida Sunset em vez de virar à esquerda, que levaria à asa do pai. Foi para a Biblioteca Pública de Beverly Hills.Pesquisar para o roteiro de Gatsby era a única coisa a fazer, concluiu ela. Talvez houvesse alguns ensaios sobre o amor, o desejo e a paixão em Gatsby que poderiam ajudá-la a escrever seu roteiro. Ela simplesmente se atiraria no projeto.Bem que ela poderia ser uma escritora fabulosa. Certamente sabia o bastante sobre os temas da vida, do amor, do desejo, da paixão para fazer jus a um filme de dez minutos. Pelo menos, quando escrevia, ela ficava no controle de tudo o que os personagens diziam e faziam.Ela só precisava escrever seu próprio final feliz.