AMOR CANINOFon fon!Adam engoliu o que restava do suco de laranja e colocou o copo na pia. A cozinha era toda de madeira brilhosa e, com uma mesa gigantesca de carvalho que tinha sido feitapor um ex-colega de faculdade do seu pai. Sua mãe, Linda, estava sentada diante dele na mesa, bebendo café e lendo o Los Angeles Times. Usava uma camiseta aveludada cor de ferrugem que combinava perfeitamente com o cabelo curtoe ruivo. Ela olhou para o filho.- Pelo que vejo, você arrumou uma carona - disse ela, sorrindo.- Sam Sharpe. - Ele pegou a mochila e passou a alça num dos braços. Bowser pulou nele, a língua de fora, ofegando cheio de esperança. - Não, Bowz, não pode ir paraa escola comigo. Desculpe.- É - concordou Linda enquanto o vira-lata se retirava. - Todo mundo sabe que não permitem cachorros na Berverly Hills High.Adam apontou para ela de brincadeira.- Fez uma piada sexista, mãe. Vou ligar AGORA para a Liga das Mulheres.- Sei que meu segredo está seguro com você. Achei que você ia pegar carona com aquela garota que levou à praia na outra noite.- É tão deplorável pedir. Eu preciso mesmo de um carro, mãe.- Então vou dizer que você precisa de um emprego.- Por que não pode me estragar de tanto mimar, como todas as outras mães de Beverly Hills?- Porque ela tem valor e consciência - disse seu pai, Leonard, enquanto descia a escada, vestido com um terno azul de bom gosto.Fon fon!- Tenho que ir, depois eu choramingo mais. - Adam deu um beijo na testa da mãe antes de correr para a porta.
Embora fosse verdade que ele quisesse desesperadamente um carro, também era verdade que ele gostava genuinamente dos pais. Adam tinha visto as famílias de filme de terror da maioria de seus amigos de Beverly Hills. Comparada com eles, a família de Adam era como uma volta a algum seriado dos anos 1950: pais casados há vinte anos e ainda apaixonados um pelo outro. Pais que ouviam. Pais que se importavam.- Bom dia - disse Adam enquanto entrava no Tensen vermelho de Sam.- Podemos pular a parte da buzina no futuro? - perguntou Sam enquanto apontava o carro esporte para fora da entrada de carros.- E você me dá um dos carros da sua família? Sabe como é, uma transação direta, sem intermediários - brincou Adam.Sam entrou no Coldwater Canyon. - Vai lá e escolhe um. Meu pai tem tantos carros que não consegue conservá-los direito. Provavelmente vai dizer que foi roubado e pegar o dinheiro do seguro.- Hmmm, acho que é crime, Sam. De qualquer forma, obrigado.Fazia uma linda manhã: o sol estava brilhando, o céu stava claro, a neblina tinha baixado e a temperatura estava abaixo dos 15 graus. Adam se sentia tão bem que começou a cantar junto com Bono no CD player de Sam.- Agora eu sei por que você não entrou para o coro -disse Sam.- Pra que a afinação quando a gente fica empolgado?Sam olhou para ele antes de entrar na avenida Sunset.- O que te deixou nojento de tão feliz?- Novos amigos, talvez.- Devo traduzir por "garota"?Adam riu. Ele gostava de Sam, sempre gostou, desde o dia em que a conheceu. Quando ela não estava bancando a diva porque o pai dela era você-sabe-quem e quando não lamentava por si mesma porque o pai era você-sabe-quem, ela era realmente uma garota divertida e inteligente.- Anna Percy - completou Adam.- Ah, é mesmo.- Não viu a gente junto no carro na segunda-feira?Sam assentiu.- Vi. Mas ela ainda não falou que está perdidamente apaixonada por você.- Ela se abre com você? - perguntou Adam.
- Na verdade, não - disse Sam alegremente, sem mencionar que Anna tinha contado a ela sobre o beijo que deu em Adam. Um detalhe sobre ser criado em Hollywood: ainformação é um bem precioso.Adam não estava em Los Angeles há tanto tempo quanto Sam, mas também aprendeu quando podia compartilhar e quando não podia. Ele não ia contar a verdade a Sam - que ele não conseguia parar de pensar em Anna. Ele não era muito bom no jogo da indiferença - o único lugar em que gostava de jogar era a quadra de basquete. Tinha mais a ver com a timidez. Ele já teve namoradas. Teve a Julie Hewser, em Michigan. Ela era meiga, inteligente, realmente uma ótima garota. Mas quando ela disse a ele que o amava, ele ficou pouco à vontade porque ele não achava que podia dizer o mesmo a ela. Depois de algum tempo, ela quis queeles transassem para que ela, como ela própria disse, "desse uma prova de seu amor". Ele não tinha de fazer isso, apesar de Julie de calcinha de renda na casa do lago dos pais dele ser uma verdadeira tentação. Então ele a levou para casa, elao chamou de o maior mané do mundo e esse foi o fim de tudo. Ele nunca contou a história a nenhum dos amigos por medo de que eles apoiassem a acusação de Julie.Quando ele se mudou para Beverly Hills, ninguém ligara para ele até que as meninas viram a fera que ele era na quadra de basquete. Depois elas correram para ele. Ele namorou uma das líderes de torcida, uma menina bem bonitinha chamadaTabitha, cuja idéia de diversão era entrar no club Lotus com identidade falsa e ver quantas celebridades ela conseguia que falassem com ela. Quando Tabitha disse a ele que achava Fernão Capelo Gaivota o maior romance escrito no mundo, eleentendeu que era hora de dar o fora. Depois teve Sam Sharpe.Eles ficaram na véspera de Ano-Novo e Adam achou que ela era uma das meninas mais inteligentes que ele conheceu na vida. Mas ela parecia fmgir que nada tinha acontecido, então ele deixou rolar.E agora havia Anna. O que, francamente, tomava mais fácil não pensar em Sam.
Sim, Anna o havia beijado, mas ela não ligou para ele na noite anterior. E quando ele ligou para a casa do pai dela procurando-a, não houve nenhuma resposta. E se ela nem gostasse dele tanto assim?- A gente levou o cachorro para passear na praia.- É, mas aposto que seus sonhos com ela são muito mais fantasiosos - sugeriu Sam.Adam podia se sentir corando. Porque, como sempre, Sam acertara na mosca.- Ei, caia fora dos meus sonhos e entre no meu carro brincou Adam, citando uma velha música de Billy Ocean. Por algum motivo estranho, em alguns dias seu rádio interiorsintonizava a Light FM. - Quer dizer, se eu tivesse carro.- Bom, a idéia do grande ladrão de carros ainda está de pé - disse Sam. - Ah, olha, lá está seu objeto de desejo.- Sam inclinou a cabeça para os degraus da frente da escola. Vamos dizer a ela que você quer transar. Brincadeirinha.Te pego mais tarde.- Obrigado pela carona! - gritou Adam enquanto Sam virava para a entrada lateral, onde sempre encontrava Dee e Cammie antes da aula começar. Ele correu para alcançar Anna. - Bom dia!Ela pareceu feliz em vê-lo. Um bom sinal.- Oi,Adam.Eles entraram na escola juntos. Adam se emocionou com a beleza de Anna Percy e percebeu que ela estava mais elegante do que o normal, com calças pretas sofisticadas e o que pareceu a Adam um cashmere branco de gola rulê.- Uau, você está ótima - disse ele.- Obrigada. - Eles se esquivavam pelo corredor abarrotado, indo em direção ao armário de Anna. - Tenho uma reunião depois da aula sobre um estágio numa agência. Tentei me vestir de acordo.- Parece ótimo, espero que consiga. - Eles pararam na frente do armário dela e ela girou a combinação da tranca.- Aí, olha só - continuou ele, esperando estar usando o tom casual. - Que tal vir comigo e com o Bowser para um passeio pelo Runyon Canyon... é tipo o parquinho de cachorro não oficial de Hollywood. Ele disse que se eu não te convidar, vai fazer greve de fome.
- E se você vier e esperar enquanto eu vou a essa reunião? - sugeriu Anna, guardando alguns livros no armário e pegando outros. - Não deve levar muito tempo... acho que é só para me apresentar. Depois vou trocar de roupa, a gente pode pegar o amor canino da minha vida e ir. Fica longe?- Pra lá. - Adam apontou para as colinas acima do Laurel Canyon. - Por mim, tudo bem. E, de brinde, não vou ter que descolar uma carona pra casa.Anna riu.- Eu sabia que você tinha motivos ocultos.A mente de Adam estava a mil por hora. "Ela deve gostar de mim, ou não teria concordado com tanta rapidez. Mas que tipo de gostar será que é?"- Ora vejam só, olha o que temos aqui.Adam se virou; Cammie e Dee estavam se aproximando deles.- Adam Flood e Anna Percy. Não são uma gracinha mesmo? - perguntou retoricamente Cammie a Dee.- Sam disse que vocês estão namorando - disse Dee a Anna e Adam. - Que bonitinho!Adam teve vontade de matar Sam. Ele nem tinha coragem de olhar para Anna.- Somos amigos - corrigiu ele. - E daí?Cammie empurrou os óculos de sol Armani de aro branco para a cabeça.-Nada de mais. Vamos pro Bev depois da escola. Talvez vocês dois queiram ir.- Quem é Bev?- perguntou Anna.Cammie riu.- Meu Deus, você é mesmo uma NP.Anna sacudiu a cabeça, sem entender.- NP quer dizer nova na parada - traduziu Adam. - E Bev é como todo mundo chama o Beverly Hills Hotel.- Ah - Anna sorriu.- Temos um garçom favorito ali - disse Dee. - Ele vai trazer umas bebidas pra gente.- No meio da tarde? - perguntou ele, animado. - Vivendo perigosamente.- Bom, agora eu não estou bebendo, por razões pessoais. - Dee deu um olhar significativo a Anna. Adam não tinha idéia do que se tratava. - Mas vocês podem.- Ah, Adam, eu te adoro. Você é tão do meio - disse Cammie.Meio, a parte do país que você sobrevoa quando vemde Nova York a Los Angeles - traduziu Adam para Anna.- Onde as pessoas vêem Sétimo Céu e não ficam constrangidas em admitir.
Cammie foi até ele e o beijou no rosto.- Acho você um charme. E invejo a garota que for a primeira a entrar em ação com você. Aposto que dentro desse armador de basquete tem um coelhinho da Duracell.Adam riu, embora ao mesmo tempo percebesse que Cammietinha razão em considerá-lo virgem - um dos últimos de Beverly Hills, evidentemente.- Duvido que exista alguma coisa que você não descubra, Cammie.- Ooh, ele arremessa e marca - anunciou Cammie no estilo de comentarista esportivo.- De qualquer forma, já temos planos para depois da aula - acrescentou Anna.- Então, tudo bem - cantarolou Cammie. - Vamos dar lembranças a sua irmã.- Minha irmã? O que vocês querem com ela? - perguntou Anna com aspereza.- Anna, relaxa. Vamos ao hotel, ela está hospedada lá e provavelmente vamos vê-la na piscina. Qual é o problema? - perguntou Cammie sensatamente.A voz de Anna ficou impassível.- Não tem problema nenhum. Ela só está frágil agora. Espero que você entenda isso.- Ela parecia bem ontem à noite - disse Cammie, levantando os ombros. - Sei lá. Então, uma tarde de arrasar para os dois, onde quer que estejam indoAnna olhou para Cammie e Dee, sacudindo a cabeçaenquanto elas partiam.- Sua irmã está na cidade? - perguntou Adam enquanto caminhavam em direção ao armário dele.O rosto de Anna ficou mais sombrio.- É uma longa história.Adam não tinha certeza se esse era o jeito de Anna convidá-lo a se aprofundar ou o jeito educado de dizer a ele para cuidar da própria vida.Mas antes que ele conseguisse descobrir mais, a sineta da primeira aula tocou.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário