DR. FREDSam digitou o número já conhecido em seu celular e andou enquanto ele tocava. "Atende, atende, atende", murmurou ela a meia voz. A conversa que acabara de ter com Anna tinha sido muito estranha. O tempo todo ela teve que se esforçarpara olhar para o queixo ou a orelha de Anna. Porque ela ficou tão obcecada com a boca de Anna, que foi preciso toda a concentração do mundo para não olhar para ela. Sam não estava pensando no filme que estava prestes a rodar. Não estava pensando em nada a não ser na boca de Anna. Como era sábado, ela ligou para a casa do dr. Fred. E embora fosse verdade que tenha demitido o psicoterapeuta alguns dias antes, Sam sabia que ele ia ficar encantado em tê-la de volta. O dr. Fred podia ser famoso, com seu próprio programa de televisão, mas o pai de Sam o ajudara a chegar lá contratando-o como o psicanalista dela.
Ela era uma de suas clientes filhas-de-celebridade, e Jackson Sharpe tinha sido umdos primeiros convidados do programa dele. Os honorários iam à estratosfera. Logo, ele devia muito a ela.- Alô? - Sam reconheceu a voz dele, com as vogais distintamente abertas do meio-oeste.- Dr. Fred? É Sam Sharpe.- Sam! Que bom te ouvir!"E aí ele volta se arrastando", pensou Sam. "Sem outros 'não ligue para a minha casa' ou 'espere até a próxima sessão". Eu sabia.- Como você está, Sam? - continuou o dr. Fred. - Andei preocupado com você o ano todo. É claro que o ano começou há alguns dias. - Ele riu da própria piada sem graça.Sam pensou na melhor abordagem para fingir que não o havia demitido.- Estou em Palm Springs com umas amigas. As coisas estão esquisitas.- Como assim?- Bom, tem uma garota aqui. O nome dela é Anna. Ela é uma nova amiga.- Sim?- Ela é de Nova York. Inteligente. Linda. Rica.- Sim?- Ela é maravilhosa. E talentosa. Estamos trabalhando num filme para nossa aula de inglês. E ela disse que escreveria o roteiro para ele. E eu pensei: "É, tá legal. Vai em frente. Escreva seu roteiro. Mas vai ser tão chato que é melhor eupreparar um roteiro de reserva só pra garantir."- E?- insistiu o dr. Fred.- Ela escreve bem mesmo. O roteiro era melhor do que o meu. Bem, talvez.- Disse a ela como era bom?Sam hesitou. Ela e o dr. Fred trabalharam no ciúme de Sam por algum tempo. O dr. Fred ficaria muito decepcionado se soubesse que Sam tinha dito a Anna que o roteiro era bom e "não ótimo".- Na verdade, não.- Sam, só porque Anna é boa em alguma coisa não quer dizer que você não seja. Não há limites para quantas pessoas podem ser boas em alguma coisa.- Tá legal, vou trabalhar isso - disse Sam, dispensando o conselho. Tinha um problema maior para resolver. - Mas não foi por isso que eu liguei. Liguei porque não consigo parar de pensar nela.- Pode ser mais específica, Sam?- Tipo assim... eu quero beijá-Ia - confessou Sam, diminuindo o tom da voz.- Interessante.
- Não, não é interessante - rebateu Sam. - Eu disse: as coisas estão esquisitas.- Tudo bem, então você gostaria de beijar essa amiga nova - respondeu o dr. Fred. - Como isso é esquisito?- Me deixa lembrar você de novo - disse Sam lentamente. - Ela é uma mulher.- Então, você está preocupada que tenha impulsos sexuais voltados para essa jovem?- Não é que eu queira ir para a cama com ela - insistiu Sam, o coração aos saltos. - Eu só queria beijá-la. É meio como em Beijando ]essica Stein, sabe qual é?Quando a garota hétero pensa que se sente atraída por uma mulher, mas na verdade ela é hétero e no fim ela termina com aquele cara ótimo.- A-hã - murmurou o dr. Fred. - Só que no filme a garota hétero realmente se sente atraída pela garota gay. Sua nova amiga Anna é gay?- Não. Talvez. Não sei. Ela me disse que está dando um tempo dos homens. Isso quer dizer que ela pode ser gay. Ou pelo menos bi. - Ou só quer dizer que alguma coisa aconteceu na vida dela que a fez querer dar um tempo de homens e se concentrar em si mesma, para variar. Acho que você se sente ameaçada por este impulso - supôs o dr. Fred.- Não. Não mesmo. Por que estaria? Não é tão incomum, é? Ou estou totalmente fodida?- Todos nós temos de nos lembrar de que nosso valor pessoal não é determinado por nossa sexualidade - declarou o dr. Fred. - Você tem repetido suas afirmações?O dr. Fred e a porcaria das afirmações dele. Ele chegou a ter uma nova linha de cartões de apresentação com aquelas malditas afirmações. Eu crio minha própria realidade. Sou um perfeito ser de luz. Eu escolho ser feliz agora.- Não. Elas são idiotas.- Como se você tivesse bom senso para dizer isso. Tudo pode ter a ver com o seu pai, Sam. E sua hostilidade em relação a Poppy. Por ora, diga suas afirmações e pratique aqueles exercícios respiratórios que eu te passei. Não seja tão dura consigo mesma.consIgo mesma.- Tá, tá, tá - grunhiu Sam.- Posso agendar uma consulta para você no seu antigo horário da quarta-feira - prosseguiu o dr. Fred. - Posso te esperar?- Tá - disse Sam, de má vontade. Pelo menos o Dr. Fred a ouvia.- Excelente. E, Sam, sentir uma coisa e agir de acordo com o que sente são coisas diferentes. Lembre-se disso.Sam desligou e se esparramou na cama de bétula sueca, diretamente abaixo do delicioso nu a óleo de Marily Monroe. Não se sentia menos ansiosa.- Sentir uma coisa e agir de acordo com o que sente são coisas diferentes - murmurou ela para si mesma. Mas isso não a fazia se sentir melhor.
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