terça-feira, 7 de outubro de 2008

ALÔ?- De acordo com Cammie, os coquetéis de sábado do V ao pôr-do-sol são desprezíveis - disse Susan a Anna. Elas estavam no quarto de Anna, onde Anna estava se vestindo para a festa. Susan já estava pronta: trocou o preto do Lower East Side por uma blusa de tricô de seda vermelha com gola rulê Patricia Field justinha, calças de veludo quadriculado Chanel e sandália vermelha de salto alto e tiras Miu Miu. Na verdade, a roupa parecia alguma coisa que Cammie vestiria.- Desprezíveis por quê? - perguntou Anna enquanto ia ao banheiro para escovar o cabelo.- Evidentemente não há homens héteros o suficiente pura todas, então a festa é a maior disputa de mulher a oeste de Mississippi.- Cammie sempre vem com essa. As mulheres não vão spas para transar - gritou Anna para a irmã pela porta entreaberta. - Vai ver que fazer compras demais fritou ocerebro dela.Anna sabia que Susan e Cammie tinham passado a tarde em um shopping de ponta-de-estoque perto da via expressa. Elas passaram por ele quando vinham para a cidade: era do tamanho de um pequeno parque temático e tinha todas asgrifes, de Armani a Zou Zou.- Como você sabe como são os coquetéis em spas? Sempre que íamos a um spa com a mamãe, você ficava com a cabeça enfiada num livro. - Susan abriu a porta do banheiro e enfiou a cabeça para dentro. - Não vai usar maquiagem nenhuma?- Não gosto de maquiagem.
- Jane Percy Júnior - caçoou Susan. - E aí, qual é a do Parker Pinelli? Eu o conheci hoje à tarde.- Bonitinho, legal, meditativo, não muito brilhante - disse Anna. - Se você mudar de idéia e fizer o papel de Nina no nosso filme, vai poder descobrir sozinha.Susan se espreguiçou.- Posso descobrir de qualquer forma. E não ligo para o QI dele. Não é na cabeça dele que estou interessada.- Ele ainda está no ensino médio, Sooz. Se você não fizer a Nina, vai ter que ser a Dee.- Eu nem gosto que tirem foto minha, Anna. Você sabe disso.É verdade.- Tá legal. Vai ser a Dee, então. Pode me trazer o telefone? - Anna se lembrou de que tinha de verificar com Brock Franklin sobre a festa dos Steinberg e ver a que horas elequeria que ela o pegasse. - E o número do hotel de Brock... está na minha bolsa.- Brock é um completo babaca. Lembra da minha amiga Alexandra Moir? - gritou Susan, depois apareceu com o telefone de Anna e o número de Brock. - Aquela quenamorou ele?- Achei que você é que tinha namorado Brock.- Uma vez. Mas ela ficou com ele por uns dois meses. Lembra dela?- Tinha cabelo ruivo e sardas bem bonitinhas, né? - disse Anna.- É. O pai dela é dono de metade do Lower Manhattan. seu novo amiguinho, o Brock, traiu Alexandra com uma rarota do Wesleyan que conseguiu uma matéria na Granta, aquela revista literária.- Eu não estou namorando Brock. Ésó trabalho. - Anna se sentou na borda da banheira e fez a chamada. - Ele já havia se registrado, mas não estava no quarto. Então ela deixou um recado lembrando Brock de que ela era irmã de SusanPercy e gostaria de se encontrar com ele no hotel na tarde seguinte, às quatro horas, antes da festa dos Steinberg.- Quais Steinberg? - perguntou Susan. - Os velhos ou os novos?- Acho que os novos. Sei que eu devia saber quem são, mas eu não sei.- Eles são simplesmente o casal de vinte anos mais poderoso de Hollywood. Ele dirige, ela escreve e produz. Os Steinberg velhos fazem filmes tipo ... ah, deixa pra lá. Você nem liga.
- Sinceramente? Não muito.- Não seja tão esnobe, Anna. Existem filmes americanos que são realmente bons. Vamos ver um quando voltarmos a Los Angeles. Por que não me contou antes que a festa era essa? Eu adoraria ir!- Viu como isso se resolveu bem? - perguntou Anna alegremente. Ela pegou um cordão de couro para prender o cabelo.- Ainda depreciando a realidade, pelo que vejo - observou Susan.Anna deu de ombros.- Fico à vontade assim.- O conforto é superestimado. - Susan se esticou, revelando a barriga. - Meu Deus, o que é um coquetel sem álcool?- Se você acha que não pode lidar com isso, fique aqui. Por que encarar a tentação?- Escondida no meu quarto? - escarneceu Susan. - Sem tentações, a vida é um tédio.Enquanto Susan ia até um espelho comprido para olhar seu corpo inteiro, Anna a analisou de uma forma diferentc. O que tinha acontecido com ela? Essa era a Susan Percy que falava quatro línguas fluentemente, que sempre usava as roupas mais caras, simples e de excelente gosto? Ou era a Susan que se formou em história moderna da Europa e queria acabar com a fome no mundo? Ou a Susan que morava no prédio sórdido da avenida D, em Nova York, com drogados recostados na escada dela?- Foi em Bowdoin - disse Anna categoricamente.-O quê?- Que você começou a beber.Susan afofou o cabelo.- Ah. Isso. Velharia.- Aconteceu alguma coisa com você lá, Sooz?- Eu saí de casa, foi só isso. E decidi viver do jeito que eu queria. Por que você tem que fazer psicodrama de tudo?- Havia uma aspereza na voz dela.- É só que você mudou - explicou Anna. - E eu não sei por quê.- Talvez você devesse se perguntar por que você não mudou -disse Susan.- Como assim?Susan cruzou os braços.- Você me disse que veio para a Califórnia pra mudar de vida. Só que não mudou nada.Arma ficou surpresa. Era como se a irmã estivesse partindo para o ataque.- É só por alguns dias, Sooz.- É, mas olha quem você está namorando. Adam, o cara legal.- Legal não é um palavrão, Susan.E além disso, eu terminei com ele.
Susan pareceu surpresa.- Desde quando?- Desde que você apontou o erro no meu jeito de escolher alguém seguro - respondeu Anna. - Parecia mais que eu estava usando alguém seguro. Gosto demais do Adam pra fazer isso com ele.- Bom, você não é nenhuma escoteira. E aí, vai voltar com o bad boy?- Eu só quero ficar sozinha por algum tempo.Susan riu.- Nenhuma mulher quer ficar sozinha.A irritação de Anna explodiu.- Nem sempre se trata de homem, tá legal? Ninguém te obrigou a grudar com aquele mané com quem você ficou na faculdade.Susan fechou a cara.- Você nem o conheceu. E não faça isso comigo, Anna.Tá bom, vamos fazer comigo então.- Posso te dizer exatamente o que vai acontecer. Você vai passar mais ou menos um mês nessa de "sou mulher" e Adam simplesmente vai ficar por aí de qualquer forma, esperando que você mude de idéia. Você vai gostar disso... porque vai ter ainda mais poder.- Meu Deus, você me irrita, Susan! Não foi por isso que eu terminei!- Minta pra si mesma, se quiser - disse Susan alegremente. - Mas não pra mim. Com ele, você mandava no show. Anna chama, Adam vem. Literal e figurativamente.- Que baixaria - disse Anna.- E verdadeira. Mas o que acontece quando você não está no controle? O que acontece?Eu sei exatamente o que acontece, pensou Anna. Acontece Ben.Quando Anna e Susan chegaram, a festa já estava a todo o vapor. Enquanto um quarteto de cordas tocava Mozart, os privilegiados e lindos se misturavam. Parker e Dee estavam na mesa com uma ruiva linda; Anna pôde ver uma cópia de seu roteiro na frente deles. Ela deu uma olhada no bar: a mulher de meia-idade que tinha dado em cima de Parker mais cedo estava segurando um drinque alto, atirando flechas imaginárias para ele. Perto, Sam estava imersa numa conversa com Jamie Cresswell, o cara que ela escolhera para interpretar Mike. Monty Pinelli segurava uma câmera de vídeo portátil de alta resolução e falava com uma das gerentes do spa.
Quando Susan e Anna se aproximaram, Parker levantou-se para recebê-las. Ele beijou Anna no rosto, apertou a mão de Susan calorosamente e depois foi procurar duas cadeiras. Um minuto depois ele as estava apresentando à linda ruiva, cujo nome era Prima McNaughton. Ela estava de visita, vinda do Texas com os pais. Prima tinha um tique incomum. Sempre que Parker olhava para ela, ela se inclinava o bastante para que seus seios massageassem o braço dele.Susan olhou bem para a garota.- Peraí, seu nome é Prima McNaughton?- A-hã.- Sua mãe é bem magra? - perguntou Susan.- É. Por quê?Susan fez uma cara de quem se concentra.- Graças a Deus eu encontrei você. Eu a vi agora mesmo perto da segurança do prédio principal. Ela procurava por você. Lembro disso porque seu nome é muito incomum. Ela parecia frenética.- Juro que é como se eu estivesse com uma coleira - falou Prima de forma arrastada, com um suspiro. Ela se levantou. - Encontro vocês depois.Susan acenou com os dedos para Prima enquanto ela se afastava.- E aí, Parker, nos encontramos de novo - disse ela sedutoramente, e Anna percebeu que a irmã estava tendo uma atitude digna de Cammie. Isto é, ela inventou uma história para se livrar de imediato de Prima e poder avançar em Parker.- Oi, Susan. Você está ótima - disse Parker. - Posso pedir uma bebida para as damas?- Qualquer coisa sem álcool e com frutas - disse Susan tranqüilamente.- O mesmo para mim - concordou Anna.Parker se virou e acenou um dedo discreto para atrair a atenção do garçom, depois tocou o roteiro em cima da mesa.- Os monólogos que você escreveu são ótimos, Anna - disse ele. - Eu não sabia que você era escritora.- Obrigada - disse Anna. - Sinceramente? Nem eu.- Eu também adorei meu monólogo - disse Dee.- "Nem sei quem sou" - recitou ela com sua voz infantil, praticando uma das falas. - Cara, isso é tão verdadeiro. Você podemesmo se tornar uma roteirista de verdade, Anna. Vai estar aqui quando a gente filmar amanhã de manhã?
Anna tinha sugerido a Sam que elas rodassem os monólogos no deserto pela manhã, para tirar vantagem da luz do sol. Ela pensou que os closes à luz do dia ficariam excelentes contra todas as tomadas noturnas e internas que iam fazer. Sam concordou prontamente e chegou a elogiá-la por sua sensibilidade visual.Anna assentiu.- Vou, para o caso de precisar fazer mudanças de última hora. Nunca se sabe. Na verdade, logo depois dessa festa vou voltar para meu quarto. Não estou satisfeita com um dos monólogos do Mike e quero reescrever. É estranho, como se eu não conseguisse tirar as falas da minha cabeça.- Não precisa reescrever nada - insistiu Parker. - Seu primeiro rascunho é melhor do que a maior parte da porcaria que tenho que ler nos testes.- Obrigada - disse Anna, surpresa com o nível de excitação com o projeto. Especialmente porque a reação de Sam tinha sido morna.- E aí, quando vai filmar o resto disso? - perguntou Susan depois que o garçom sinalizou que chegaria logo.- Sam e Monty vão começar a rodar as cenas de fundo aqui na festa a qualquer momento - disse Anna a ela. - A última seqüência será na sauna Mount St. Helens, mais tarde.- Parece quente e suarento - disse Susan, rindo. - E divertido.Parker ergueu as sobrancelhas e sorriu maliciosamente.- Podia ser. Mas eu soube que você não quer entrar no filme.Susan franziu os lábios.- Eu podia deixar você me convencer.Parker se inclinou para Susan.- O que seria preciso para você mudar de idéia?- Hmmm ... Ainda não sei bem. Mas estou disposta a descobrir, se você estiver.Susan e Parker olharam-se nos olhos eAnna concluiu que não era capaz de suportar nem mais um segundo ali. Esta festa era uma perda de tempo. Cada minuto em que estava sentada ali era outro minuto em que não estava trabalhando no roteiro. E o monólogo de abertura de Mike a incomodava cada vez mais. Apesar das garantias de Sam de que dava para rodar, Anna não achava que estava totalmente bom.
- Com licença - disse ela, levantando-se. - Vou voltar ao trabalho.Dee disse um até logo, mas só o que Susan e Parker conseguiram fazer foi dar um aceno meio frio. Anna fez uma prece silenciosa para que a irmã estivesse usando anticoncepcionais e depois foi para o quarto. Algumas horas com seu roteiro, seu laptop e sua impressora pareciam extremamente convidativas.Isso foi poucas horas antes de Anna tirar os olhos do laptop. Ela não tinha idéia de quanto tempo se passara. Agora o monólogo de Mike estava muito melhor, mais sincero. Ela releu as últimas frases.As pessoas podem chamar de paixão. Ou desejo. Ou obsessão. Eu não me importo. Só quando estou com ela, tocando-a, é que me sinto completamente vivo. Se vocênunca sentiu o poder disso, eu lamento por você.Anna se levantou e alongou o pescoço. Antes de Ben, ela nunca poderia ter escrito essas falas porque, antes de Ben, ela não conhecia esses sentimentos. Se pudesse voltar no tempo e magicamente fazer com que os dois nunca se conhecessem, ela não teria feito isso. Porque junto com a dor estava a doçura de sentir tudo o que ela sentia por ele. Parte dela queria que ele soubesse disso. E nem importava a garota na esplanada."Mas como posso? Ele acha que estou com Adam", percebeu Anna. "Queria que ele soubesse que eu não o troquei por ninguém, a não ser por mim mesma. Que eu não namoro pessoas para afastar a solidão. Ben devia saber que estou sozinha. Por opção própria."De repente, corrigir a impressão de Ben de que ela estava com Adam tornou-se a prioridade número um de Anna. Ela procurou o número de Ben no PalmPilot. Depois pegou o celular na bolsa, mas a bateria tinha arriado - ela esquecera le recarregar. Impulsivamente, ela pegou o telefone do hotel lia mesa e ligou para o celular de Ben.-Alô?A voz de Ben! A primeira reação de Anna foi desligar. Não, isso era ridículo. Estava sendo imatura. Ela estava no comando.- Oi, Ben, é a Anna.- Anna.A voz dele era como uma carícia. De repente ela se sentiu ridícula. Será que devia simplesmente vomitar que ela e Adam não estavam juntos? Agora, tarde demais, ela percebeu que pareceria uma paquera ridícula. Ela terminou com Ben! Por que ele se importaria se era porque ela estava com Adam, Mickey Mouse ou qualquer outro?Resposta: ele não ia se importar.- Desculpe, eu não devia ter ligado - começou ela.- Devia, sim! - disse ele rapidamente. - Eu estava pensando em você.A mão de Anna estava bem úmida no telefone; isso revelava o quanto estava nervosa.- Eu ia te dizer que Adam e eu não estamos nos vendo mais. Mas agora parece ridículo.- De jeito nenhum - garantiu-lhe ele. - Onde você está?- Isso não importa. Eu não devia...- Dá pra parar com isso, Anna? Onde é que você está?- Não é o que você pensa, Ben - prosseguiu Anna, sentindo-se pior de repente. - Eu não quero ficar com ninguém agora.Silêncio.- Peraí. Você ligou pra me dizer que quer ficar sozinha?- Desculpe, Ben, de verdade.- Anna, que diabos ...Ela desligou, as mãos tremendo. Meu Deus, que idiota ela era! Por que teve que ligar para ele? Que parte perversa de seu cérebro decidiu que era uma boa idéia?Anna foi para o quarto e se deitou na cama. Que coisa mais imbecil de se fazer. Ela estava com nojo de si mesma.Quem diabos era ela para julgar o comportamento de Susan quando o próprio comportamento era tao patético.Para isso, ela não tinha nenhuma resposta.

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