terça-feira, 7 de outubro de 2008

POR QUE TRANSFORMAR UMA COMÉDIA EM UMA TRAGÉDIA?- Anna! Mas que droga, Anna! - gritou Ben.Anna disparou pela porta do prédio de serviço do spa, decidida a não olhar para trás. Mas logo Ben estava ao lado dela.- Aonde está indo?Ela olhava diretamente para a frente.- Qualquer lugar que não seja aqui.- Ei, foi você que me ligou, lembra?- Vamos chamar de insanidade temporária.Ele manteve o ritmo enquanto ela andava a passos largospelos jardins luxuosos que levavam ao prédio principal.- Olha, eu não estava esperando uma revelação na sauna, Anna. Eu não planejei isso.- Legal. Você não planejou isso.- Então por que está me culpando?Ela virou para ele com tanta rapidez que ele involuntariamente deu um passo para trás.- Culpar? A culpa não tem nada a ver com nada. Está vendo o tipo de gente que você chama de amigos, Ben? Sam devia ser sua amiga, mas até ela chama você de galinha. Dee? Ela é ridícula. E Cammie é uma piranha insensível.- Não me julgue por elas...- Tudo bem, vou te julgar pelo que sei de você. Você disse que não sabe se transou ou não com a Dee porque estava chapado demais para se lembrar. Que tipo de pessoa faz isso, Ben? Você disse que me largou no Ano-Novo porque foi resgatar uma amiga. Depois nem entrou em contato comigo por três dias e por fim deu uma desculpa idiota! Ou estava bêbado naqueles dias também? Você não pode abdicar daresponsabilidade por seu comportamento só porque ficou íntimo do Johnny Walker Red Label!
- Não é uma coisa que eu... A situação era... - Ben parou.Ele suspirou. Os ombros caíram. - Tudo bem. Talvez você tenha razão.Ele parecia tão triste que Anna por um momento quis colocar os braços em volta dele.- Tem sorte que Dee não esteja grávida, Ben - disse Anna, a voz mais suave agora. - Mas não está vendo? Você não se lembra do que aconteceu naquela noite, o que significa que podia ser verdade. Então o que você teria feito?- Não sei. - A voz dele estava áspera, os olhos infelizes.- Com toda a sinceridade, me desculpe, Anna. Eu queria poder explicar para você entender... Mas acho que não importa mais pra você. Desculpe se eu te incomodei.Ele enfiou as mãos nos bolsos e se afastou. Anna não conseguiu evitar; ela sentia como se Ben tivesse arrancado seu coração do peito e estivesse levando-o com ele. Ou, mais precisamente, o arrastasse atrás dele. Ela teve que se obrigar a não segui-lo.Acabou. Acabou de verdade. Não havia mais nada a dizer.Quando Anna voltou para o quarto, a irmã estava parada do lado de fora da porta.- Bom, foi um espetáculo - disse Susan enquanto Anna abria a porta.- Que bom que pude te dar uma diversão pós-reabilitação.- Caraca. Não me lembro de ter ouvido você sendo sarcástica antes - comentou Susan.Anna se atirou no sofá, deitou-se e fechou os olhos.- Como pode achar isso engraçado?- Porque é. Por que transformar uma comédia em uma tragédia?Anna abriu os olhos de novo. Susan estava à mesa, olhando o cardápio do serviço de quarto.- E se eu tivesse dito isso a você?- Bravo, ponto para a irmã mais nova. Quer lanchar?- Adivinha uma coisa, Susan. É possível ter problemasde verdade na vida sem ter de ir para a reabilitação pararesolvê-Ios.Susan continuou com os olhos no cardápio.- Sei disso - disse ela em voz baixa.As lágrimas encheram os olhos de Anna quando ela se sentou.- O que aconteceu com você, Sooz?Susan olhou para ela.- Do que está falando?- A pessoa neste quarto comigo ... não é você.- Talvez seja.
- Não. Você nunca foi fria. Nem cruel. Nem desagradável. Você sempre foi ... Você se importava com as pessoas. Você se importava comigo.Susan largou o cardápio e foi até uma das poltronas felpudas. Ela se sentou com uma das pernas sobre um dos braços.- Talvez eu só não queira mais me importar tanto assim, Anna. A vida é mais fácil desse jeito.- Isso é simples demais - disse Anna. Ela não pretendia discutir com Susan, especialmente depois do que aconteceu na sauna. Nem tinha percebido conscientemente como o comportamento de Susan a estava incomodando. Mas aliestavam elas.-Por quê? Porque eu decidi não jogar mais pelas regras da mamãe? - perguntou Susan. - Todas as advertências e os adendos do que é ou não permissível? Deus lhe proíbe ter desejos. Deus lhe proíbe de ter paixão. As regras da mamãe são um porre, Anna. Prefiro viver do meu jeito e foder com tudo em vez de ficar nessa prisão. Eu já te disse isso, e vou dizer de novo: quando foi a última vez que você aproveitouuma oportunidade?- Vir para Los Angeles foi uma grande oportunidade, e não estamos falando de mim.- Tudo bem - rebateu Susan. - Porque para você é melhor se concentrar nos meus problemas do que nos seus. Então você se mudou para Los Angeles. Grande coisa. Nada mudou, só o mar.Anna sentiu seus punhos cerrando.- Tá legal. Vou tentar do seu jeito. Como é que é mesmo? Largar a faculdade para morar com um pobretão fracassado Ferrar com tudo. Depois ir para a reabilitação e abandoná-la. Depois se tornar a mané das festas. Entendi direitinho?Toda a cor sumiu da cara de Susan.- Eu não abandonei a reabilitação.- Abandonou, sim - insistiu Anna. - Pelo menos assuma seu...- Eu consegui ser expulsa - rebateu Susan. - Satisfeita?Anna ficou em silêncio. Ela não sabia o que dizer. Até que finalmente pensou numa coisa.- É claro que não estou satisfeita. O que aconteceu?Susan olhou para o tapete, como se não conseguisse suportar olhar para a irmã.- Eu não bebi, se é o que você pensa. - Por fim, ela ergueu os olhos. - Eu estava com um cara. Ele bebeu. A gente foi apanhado. E não vou perguntar se você acredita em mim porque não ligo a mínima. Então vai se foder, Anna, você e a sua caretice. -Susan se levantou e foi direto para a porta.Anna ficou sentada, atordoada. Ela sabia que Susan estava sofrendo. Devia haver segredos que Susan não queria dividir. Mas em vez de se colocar à disposição da irmã, ela a atacou. O pior era que Anna sabia como Susan ficava triste com isso,porque o pai delas tinha feito exatamente a mesma coisa.

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