terça-feira, 7 de outubro de 2008

OS MAURICINHOS CHATOS DE SEMPRE·Anna atravessou o agora conhecido caminho para o bangalô de Susan no Beverly Hills Hotel. O único som era o tuac-tuac tuac das raquetes batendo nas bolas daqueles que jogavam tênis nas quadras iluminadas do hotel. Por quê, por quê, porque ela teve que esbarrar com Ben e a nova namorada dele? As imagens marcavam o cérebro de Anna a ferro. Cabelo castanho avermelhado brilhante, bronzeado, barriga convexa - ela era o oposto físico de Anna. Ela não devia ligar para isso. Sabia que não devia. Então por que se sentia tão mal? Que traço de masoquismo a fazia querer um cara que foi cruel com ela? Ela devia estar pensando em Adam. Eles passaramum ótimo dia juntos.Anna queria gritar. E pensar que Ben tentara reatar quando já tinha uma namorada nova! Que idiota! Ela fechou os olhos com força por um momento, como se isso afugentasse os pensamentos fixos em Ben. Ela pensou em Susan. Era muito mais fácil se preocupar com os problemas da irmã do que ficar obcecada com os próprios.Ultimamente, Susan vinha sendo um enigma. Ela era iteligente, provavelmente ainda mais inteligente do que Anna. Susan se formou em quarto lugar na turma. Foi aceitaem todas as universidades a que se candidatou, inclusive Harvard. Mas preferiu o Bowdoin College, no Maine, para que pudesse estudar com um certo historiador famoso que dava aulas lá.No começo ela se saiu muito bem. Depois as coisas mudaram. De repente ela parou de ir à aula e começou a sair com uns caras que estavam se formando em drogas e álcool. Ela se transferiu para a Universidade de Nova York, apaixonou-se por um guitarrista irlandês de rock e largou a faculdade para acompanhar a banda do cara numa turnê vagabunda pela costa leste. E depois o relacionamento terminou. Então, Susan voltou para a avenida D, no East Village.Até agora, Anna não tinha idéia do que acontecera em Bowdoin para fazer Susan mudar. Isso entristecia Anna.
Numa família em que todos eram reconhecidamente distantes, houve um tempo em que Anna e Susan dividiam seus segredos e eram o refúgio uma da outra. Mas isso parecia ter sido há muito, muito tempo.Enquanto se aproximava do bangalô de Susan, Anna pôde ouvir os Wallflowers - uma das poucas bandas de rock com que se identificava - berrando pelas janelas, um sinal certo de que Susan tinha voltado sabe-se lá de onde tinha ido. Anna bateu discretamente na porta.- Entra! - Ela ouviu o grito abafado de Susan através da porta. Um segundo depois a porta se abriu. Susan estava usando o roupão felpudo branco com mono grama que ohotel providenciava para cada hóspede; os cabelos molhados enrolados numa toalha. - Anna! Pensei que fosse o serviço de quarto.- Não. Sou eu.- Entra. Pedi o bastante para dois. Já comeu?- Cachorro-quente com um amigo.- Minha irmãzinha dando uma de pobre - brincou Susan. - Estou impressionada. Entra aí.Anna estremeceu ao entrar no bangalô. Era tão parecido com o de Noah Monahan que ela não conseguia se livrar da j magem dele tentando seduzir seus pés. O bangalô exibia uma cozinha totalmente equipada, salas de estar e de jantar espaçosas e um quarto com uma cama luxuosa. Pela porta aberta do quarto, Anna pôde ver sacolas de compras de vários tamanhos no chão.- Foi fazer compras? - perguntou ela.- Com Cammie Sheppard - disse Susan. - Foi divertido, de uma forma meio idiota. Não sei por que você não gosta dela, Anna. Ela é uma figura.- Só tenha cuidado com ela.Susan deu de ombros, tirou a toalha da cabeça e foi para o banheiro secar o cabelo.- Você pensa e se preocupa demais - decretou Susan."Será que era verdade?", perguntou-se Anna. Provavelmente. Era como se ela não conseguisse se livrar do monólogo que corria em sua cabeça. Às vezes ela invejava as pessoas que simplesmente conseguiam ser.Houve três batidas discretas na porta.
Houve três batidas discretas na porta.- Agora deve ser o serviço de quarto - disse Susan, voltando-se para a porta. Uma olhada pelo olho mágico confirmou sua suspeita e ela abriu a porta para o garçom, que empurrou um carrinho trazendo um arranjo central de lavanda com orquídeas brancas.- Antepasto de torta de caranguejo, sopa de lagosta, sanduíche natural com bacon extra, fritas, salada de manga com abacate, cheesecake de avelã e uma Coca - enumerou ele, levantando as tampas de prata dos vários pratos e colocando-os na mesa de jantar. - Mais alguma coisa, senhorita?- Não, está ótimo, obrigada. - Susan assinou seu nome na conta, acrescentou uma gorjeta generosa e deixou o garçom sair. Virou-se para Anna, o rosto vermelho. - Como eu disse, você me pegou numa bela comilança. Então agora vai ter que me ajudar a comer.- Não estou com fome - protestou Anna.- Vamos lá. Me livra dessa humilhação.Anna riu.- Tudo bem, claro. Posso ficar com a sobremesa,Elas se sentaram juntas. O garçom achou que o pedido era para duas pessoas, então foram providenciados pratos extras. Anna pegou um prato e uma parte do sanduíche natural e deu uma mordida.- Delicioso. E aí, o que você fez além das compras?- Nada. - Susan partiu para a torta de caranguejo. - Cammie queria sair hoje à noite, mas ainda estou meio com jet-lag, então dispensei.- Foi inteligente.- Estou legal com o álcool, Anna.- Eu não disse que você não estava.- É esse tom. Você parece a mamãe. - Ela lambeu a maionese do dedo mindinho.- Pareço? - Anna se sentiu atacada.- Não, desculpe. - Susan estendeu a mão para pegar a de Anna - Meu Deus, por que eu faço isso? Às vezes fico na defensiva com você.- Talvez eu faça você se sentir assim - disse Anna, culpando- se.Susan deu de ombros e mordeu mais um pedaço da torta de caranguejo.- O que posso te dizer? Você é controlada. Mamãe é controlada. E eu não. Os homens adoram isso. É um dos motivos para papai ter se apaixonado por ela.
Anna pegou a Coca de Susan.- Por falar nisso, eu devia pedir a você que ligasse para ele.- Eu já disse, Anna, não quero vê-lo.Nem falar com ele.- Tudo bem, tá legal, você não gosta dele, eu sei. Mas ele está tentando mudar. Por que não dá uma chance a ele?- Porque não.- "Porque não"? Que tipo de resposta é "porque não"?- Já ocorreu a você, irmãzinha, que eu posso saber de umas coisas que você não sabe sobre o papaizinho querido? E que desta vez eu posso estar te protegendo, em vez do contrário?Não, esse tipo de coisa nunca tinha passado pela cabeça dela.- Que coisas?Susan acenou a mão como quem rejeita a idéia.- Esquece. Come aí. Depois vamos ver as roupas lindas que Cammie me fez comprar. Temos que aprontar muito nesse fim de semana para que eu possa exibir todas. Aliás,vamos ver agora.Susan levou Anna para o quarto e mostrou as compras - uma blusa Prada malva sem mangas com franzidos, um casaco laranja Marc Jacobs com botões enormes, um vestido drapeado Diane von Furstenberg com estampa de tigre e uma saia Ann Demeulemeester que Anna não conseguiu entender. Ela se juntava na cintura e a bainha era cortada num ângulo extremo - onde é que alguém ia usar uma coisa dessas? De repente o estilo da irmã era indefinível.repente o estilo da irmã era indefiníveL- Eu me transformei numa esquizofrênica da moda - confessou Susan. - Mas você tem que admitir que a calça preta é demais. - Ela a vestiu para mostrar a Anna. -O que acha?Ela era de renda e meio transparente. Anna nunca usaria uma roupa nem de longe parecida com essa. Bom, nunca, não. Ela usou uma calça muito mais perua na véspera de Ano- Novo, quando ficou com Ben e comprou a calça de leopardo falso mais fina do mundo, na sex shop da Hustler, e depois a usou na festa da Warner Brothers. A lembrança a fez tremer.- Qual é o problema? - perguntou Susan. - Ficou ruim?- Não, está ótima - respondeu Anna, tentando parecer entusiasmada.Susan riu. Foi até a mesa-de-cabeceira para pegar cigarros.
- Você é cheia de merda, Anna. Você odiou essa calça. Você é tão patricinha.- Você também costumava ser.Susan acendeu o cigarro e deu uma tragada longa.- A diferença é que isso nunca me satisfez. - Ela olhou para sua irmã pensativamente. - Já fez alguma coisa errada na vida, Anna? Já quis fugir e ficar doidona?- Servem aqueles dez minutos no bangalô do Noah?- Dando o pé nele, literalmente? - Susan riu. - Cammie me contou sobre, hum, a predileção dele. De qualquer forma, essa não serve.- Muito eca - disse Anna, rindo. - E ele parecia tão normal!- Se quer gente normal, Anna, saia com os mesmos mauricinhos chatos com quem saía em Nova York. Não tem problema um pouco de piração, sabe como é."Eu tive na véspera do Ano-Novo", pensou Anna. "Com Ben. E só o que consegui foi me magoar." Anna tentou esclarecer a observação de Susan.- Então você acha que eu devia deixar o Noah lamber os dedos dos meus pés?- Nada disso. Você sabe o que eu quero dizer.De repente Anna queria contar a Susan sobre o Ben - ela se lembrou da época em que as duas irmãs não tinham segredos uma para a outra. Além disso, Susan já não tinha muita idiotice e maluquice na vida dela? Ela era a primeira a admitir isso. Por que era melhor guardar segredo e deixar Susan acreditar que só a irmã mais velha julgava mal as coisas? Elas voltaram à mesa para comer e Anna se arriscou: contoua Susan tudo sobre Ben.- Caraca. Quem diria? - disse Susan. Ela acendeu outro cigarro e jogou o fósforo na torta de caranguejo intocada.- Que droga, querida. - Vivendo e aprendendo.- Os homens podem ser uns merdinhas.Anna suspirou. -É.Susan puxou as pernas para cima e se sentou à mesa no estilo indiano - um hábito que fazia Anna se lembrar de quando elas eram crianças.- A mamãe odiava quando você sentava desse jeito lembrou Anna. - Dizia que não era digno de uma dama.- Mamãe está a mais de mil quilômetros de distância; acho que é improvável que ela descubra. Quer dizer, a não ser que você conte a ela.
- Não conto nada a ela.- Ótimo. Aliás, Anna, como você sabe que esse cara, o Ben, não está dizendo a verdade? Sobre,o motivo pelo qual ele te largou sozinha naquela noite, quero dizer?- Sooz, qual é. Ele me largou às três da manhã porque tinha que salvar a vida de uma celebridade misteriosa. Você acha que isso é plausível?Susan pegou um copo de água gelada e o bebeu antes de falar.- Não. E é exatamente por isso que eu acho que ele podia estar dizendo a verdade. Quer dizer, pelo que você contou, o cara é inteligente, né? Inteligente, tranqüilo, um gato. Um cara como esse definitivamente pode pensar numa mentira melhor.Anna sacudiu a cabeça.- Sinceramente, eu duvido disso.- Vai por mim. Ben pode ter contado a verdade.Anna foi até as janelas abertas, embora não houvesse nada para ver do lado de fora a não ser algumas luzes junto ao caminho que passava pelos bangalôs. Ela podia sentir o cheiro de jasmim e laranja, flores que brotavam o ano todo em LosAngeles, e inalou profundamente, tentando se acalmar. Por quê, por quê, por que sempre voltava a Ben? A imagem dele com sua nova namorada inundou novamente seu cérebro. Ela queria tão desesperadamente não ligar para isso!- Isso não interessa mais - disse ela por fim, voltando-se para a irmã. - Eu superei tudo. Ele está com outra pessoa. E eu também. Susan riu.- Mentirosa.- Estou, sim! Eu estava com ele agora, aliás. A tarde toda. O nome dele é Adam. Ele é o anti-Ben;- Eu não quis dizer que você estava mentindo sobre sair com outro, docinho - 'explicou Susan. - Quis dizer que está mentindo sobre ter superado Ben.Anna sentiu o pescoço corar; esperava que Susan não pudesse ver.- Não estou, não.- Besteira. Posso sentir o cheiro de tensão sexual em toda a sala. Você precisa seriamente de sexo. Estou te dizendo, a gente deve ir pra balada com a Cammie e a Dee nesse fim de semana. Sua tarefa é pegar o cara mais gostoso que encontrare transar.Quando Susan ficava desse jeito, Anna se irritava.
- Primeiro, esse é um conselho ridículo - rebateu Anna.- Segundo, eu já te disse: vou a um spa com a Sam nesse fim de semana. Estou trabalhando num roteiro para um curta, lembra? E você vai comig... a não ser que tenha mudado de idéia. Terceiro, a Cammie e a Dee não estão no topo da minha lista de gente-com-quem-quero-passar-meu-precioso-tempo. E quarto, o sexo sem sentido é tão... tão sem sentido!- Como pode saber? - perguntou Susan laconicamente. -Nunca fez.- Não preciso fazer para saber.- Só existe uma razão para você dizer isso, Anna. Porque já conhece o cara com quem seria significativo.Tudo bem, Susan agora a estava irritando de verdade./- Se quer dizer o Ben, está enganada - insistiu Anna. - Por acaso sua nova melhor amiga Cammie não falou que ele foi namorado dela?- Não. - Susan pareceu surpresa, o que deixou Anna satisfeita. - É mesmo?- E a sua outra nova melhor amiga Dee Young por acaso disse que ela passou uma noite com ele?O queixo de Susan caiu.- Está falando sério?- Infelizmente, sim.- Mas que babaquice. Eu retiro tudo o que disse. O cara é um galinha.- Obrigada.- Mas o outro cara... qual é o nome dele?-Adam.- Adam - repetiu Susan. - O que você acha dele?Anna pensou por algum tempo.- Ele é legal - disse ela por fim.- Legal?- protestou Susan. - Legal?Um gatinho novo é legal. Seu professor do primeiro ano era legal. Aquele cara com quem você foi ao baile da sétima série? Paul Brody, aque le que parecia um albino, que os pais eram donos da metade do Upper East Side. Ele era legal. Mas você me disse que ele babava quando beijava. Anna, você tem quase 18 anos. Não precisa de um cara que é apenas legal!- Ah, por favor, que coisa mais clichê - insistiu Anna. - Um cara pode ser um gato sem ser bad boy. Adam é incrível. É inteligente. É sincero...
- Então dá um excelente assistente social- observou Susan. - Talvez haja uma vaga para ele na Hazelden. Mas, como namorado? Você vai ficar morta de tédio em três meses. E foi por isso que você veio pra cá, né? Não precisa mais ficar morta de tédio!- Tá legal- rebateu Anna. - E você não precisa sair à noite com as ex-paixões de Ben.Susan pareceu desafiadora.- O que espera que eu faça, Anna, que eu nunca mais saia pra dançar e me divertir?- Não é como comer e dormir, Susan. Não é uma coisa que você tenha que fazer.- Desculpe. Mais uma vez sua irmã mais velha vai decepcioná -la.Anna suspirou. Às vezes Susan simplesmente a esgotava.- Tudo bem. Faça o que quiser.- É o que você diz, mas não é o que quer dizer - disse Susan.- Tem razão. Porque eu te amo. E prefiro que você fique por aqui pelos próximos cinqüenta ou sessenta anos.Susan desviou os olhos. Ficou em silêncio por algum tempo.- Tá legal- disse ela finalmente. - Você venceu. Deixa, Cammie e a Dee pra lá. Eu vou para Palm Springs com você.- Ótimo. - Anna podia sentir seus ombros se despregando dos lóbulos das orelhas. Pelo menos não teria que se preocupar com Susan por mais alguns dias. Ela foi até aIrmã e lhe deu um abraço rápido. - A gente vai se divertir. Você vai ver.Susan pegou uma mecha do cabelo de Anna.- Provavelmente, não. Mas eu sei que você só está cuidandode mim. Posso te dizer uma coisa?-Claro.- Pense no que eu disse. Não dá pra você negar o seu desejo por alguém. E esse tipo de amor tranqüilo e estável... Esse pode esperar até a meia-idade chegar.Em todo o caminho para casa, Anna pensou no que Susan tinha dito. Será que estava escolhendo a segurança à custa da paixão, e fazia isso porque Ben a havia magoado tanto?Ela gostava de Adam. Muito. E se sentia mesmo atraída por ele. Mas Susan estava certa: Anna não sonhava em arrancar as roupas de Adam. Não sentia um friozinho na barriga quando pensava nele. E nem todo gostar do mundo ia fazer com que isso acontecesse.Se era porque ela estava com medo ou só porque não havia química, ela não sabia. Mas Anna sabia de uma coisa: não era justo com Adam.A questão era: que diabos ela ia fazer com isso?

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