terça-feira, 7 de outubro de 2008

TAMANHO 34- Quarenta e oito, quarenta e nove, cinqüenta!Cammie se sentou na tábua de abdominais, tendo acabado uma série de cinqüenta.- Impressionante - disse Susan, enxugando o pescoço numa toalha. Ela havia acabado de fazer cinco quilômetros de spinning.Era o dia seguinte. Cammie ligara para Susan no Beverly Hills Hotel e a convidara a ir malhar com ela na Summit, a academia mais exclusiva de Los Angeles. Ocupando a cobertura e o terraço do prédio mais alto da Century City, a Summit atraía atores, modelos, executivos de estúdio e celebridades que não se importavam nem um pouco em pagar a taxa anual de cinco dígitos e que não gostariam de ser pegos nem mortos na, digamos, Los Angeles Fitness, independentemente de Cindy Crawford fazer a propaganda de lá.A Summit era enorme. A Summit era suntuosa. Haviauma piscina no terraço, quatro quadras de tênis iluminadas e uma quadra de basquete coberta, uma parede de escalada, um restaurante e uma loja de sucos, salas de aeróbica, ioga, spinning e kick-boxing, além de equipamento de halterofilismo, circuit training e cárdio, que alguém podia querer. O que mais agradava aos sócios - além de ficar isolados da ralé de Los Angeles, e da incrível vista através das vidraças que davam para o Pacífico e também para o centro da cidade - era que depois que saíam do andar da academia, não havia nada da presunção que estragava tantas academias.
Mesmo que os clientes estivessem mesmo na capa das principais revistas, todos se vestiam para malhar. E era por isso que Cammie e Susan estavam usando shorts comuns de ginástica, camisetas e calçados atléticos. Esse era talvez o único lugar "in" em Los Angeles em que se vestir bem era "out", a não ser no sentidode todos ficarem de olho na perfeição da forma física dos outros - ou na falta dela.- Pronta para se trocar? - perguntou Cammie, enxugando o cabelo molhado da testa.Susan concordou. Cammie levou-a até o vestiário, que exibia paredes de vidro do chão ao teto - o vidro era de uma face para que nenhum paparazzo de helicóptero, com lentes telescópicas, pudesse tirar fotos constrangedoras.- Ligou para Anna e disse a ela que vai me levar na festa dos Steinberg?Susan abriu o armário.-Não.- Por que não?- A gente brigou ontem à noite. A gente mal se falou quando voltou do deserto."Perfeito." Cammie tinha analisado o relacionamento de Susan e Anna. Susan era o ponto fraco de Anna. E, por extensão, seu cordeiro sacrificial.Cammie xingou a si mesma por não ter sido capaz de insistir com Ben Birnbaum. E xingou Anna Percy por ter tanto poder sobre ele. Ben tinha procurado por Anna em plena sauna Mount St. Helens, completamente vestido. Ele nunca fez nada disso por ela, e nunca faria. Magoava tanto saber que ele amava Anna de um jeito que jamais a amaria. Anna ia pagar por isso.Enquanto se despia, Cammie teve o cuidado de esconder o sorriso afetado. Susan era emocionalmente dependente de Anna; isso, Cammie já havia deduzido. Uma briga entre as duas era definitivamente uma coisa de que podia tirar proveito.A coitadinha da Susan podia facilmente ficar soltinha, sem a Anna para ampará-la.Cammie se espreguiçou, sabendo que seu corpo nu era incrível. Contrastan:do com o de Susan, cuja barriga era flácida e a bunda caía um pouco. Depois que elas se despiram para tomar um banho, Susan se enrolou numa toalha e prendeu a ponta.
- Mas e aí, sobre o que foi a grande briga? - perguntou Cammie.- Eu prefiro não falar sobre isso.Cammie riu.- Você parece a sua irmã.- Que se parece com a nossa mãe. Que provavelmente escreve um bilhete de agradecimento depois que transa. - A beira da toalha de Susan estava solta, revelando seu corpo nu. - Meu Deus, queria perder o peso que ganhei nareabilitação.Os olhos de Cammie varreram o corpo de Susan antes de Susan prender novamente a toalha.- Não é um porre? A mesma coisa aconteceu comigo quando fiquei na clínica.- Já perdi um quilo e trezentos - disse Susan. - Mais duas semanas e perco o resto.- Bom, admiro sua autoconfiança. Quer dizer, deve ser um saco ter uma irmã tão perfeita.Susan se limitou a dar de ombros.Elas passaram a meia hora seguinte no banheiro de mármore e vidro e na sala de vapor. Cammie tratou de deixar os olhos correrem pelo pequeno pneu na cintura de Susan, depois, quando Susan pegou Cammie olhando-a, ela fingiu que não estava olhando. Ela apontou para o corpo esbelto e lindo das outras mulheres que viam. E fez uma piada de que era ilegal ter tamanho acima de 34 na Summit.- E aí, que roupa vai usar na festa? - perguntou Cammieenquanto elas iam para a área dos armários.- A calça preta que compramos na Betsey Johnson.- Aquela? Ah. Ótimo. - Cammie se certificou de que a dúvida ficasse um pouco óbvia na sua declaração.Susan largou a toalha no cesto de toalhas molhadas e pegou as roupas no armário.- Que foi? Você me ajudou a escolher!- Ela é ótima - garantiu Cammie. - Você e Anna têm estilos tão diferentes.- E daí? - Susan fechou o sutiã e estendeu a mão para a camiseta.- É só que Anna nunca usaria a calça que você comprou.Susan puxou a calcinha, depois a calça jeans.- Eu podia usar qualquer outra coisa.- Não, essa é legal. Você tem gosto próprio. Quer dizer,você gosta desse visual. É ótimo.- Que visual?- Sabe como é, o visual eu-sou-legal-pra-caramba. Você é rebelde, isso é legal.- Obrigada, dr. Fred - resmungou Susan.
- Sei bem como você se sente - prosseguiu Cammie.Susan estava sentada no banco, amarrando as sandálias, então Cammie se sentou ao lado dela, curvando-se para se aproximar mais, a voz baixa e hipnótica.- Já sentiu como se você se deixasse vencer por tudo o que quer, que você simplesmente não pára de querer?- O tempo todo - confessou Susan. Ela pegou a outra sandália.- Tipo você nunca vai estar à altura. E nada consegue te satisfazer, nunca - continuou Cammie -, porque você é essa coisa gulosa, carente? Eu sinto isso o tempo todo.Susan olhou em volta. O vestiário estava vazio. Ninguém estava lá para ouvir a conversa.- Bom, você esconde muito bem.- É?- Cammie fingiu surpresa. Ela pegou as sandálias de camurça e couro Giuseppe Zanotti no armário. - Obrigada. Vou te contar, Susan, depois da reabilitação, eu tinhamedo de fazer tudo. Comer estava fora de cogitação ... eu estava uma porca. Beber como eu podia parar no primeiro drinque? Fumar bagulho eu queria fumar até esquecer e ficar ali. Coca, Ecstasy, sexo ... qualquer coisa que eu fazia antes da reabilitação, eu queria fazer sem parar.- E aí, como foi que parou?- Tive que provar que podia dominar isso, sabe? Quer dizer, o que eu devia fazer, ficar sozinha no meu quarto ouvindo música deprê pelo resto da minha vida? Então eusimplesmente, sabe como é, tomei um drinque. Cammie podia ver o anseio por "um drinque" na cara de Susan.- E?- insistiu Susan- E daí? É sério, foi a conclusão a que eu cheguei. Se eu tomar um ou dois drinques, e daí? Faz com que eu me sinta melhor. Eu não machuco ninguém. E provei que posso me divertir e não, tipo assim, simplesmente apagar.- Deve ser legal. - Susan se levantou, fechou o zíper da calça e vestiu a blusa Chanel..- É legal. - Cammie vasculhou o fundo da bolsa de ginástica e encontrou o que estava procurando: uma meia garrafa de vodca Flagman, o rótulo russo provando que era autêntica. Ela desatarraxou a tampa. - Não suporto que as pessoas me digam o que fazer. Quer um pouco?
- Não. - Susan borrifou perfume Escada no pescoço, depois começou a escovar o cabelo e a passar brilho labial- Tudo bem. Eu entendo. No seu lugar eu daria um belo "foda-se" a Anna e a todo mundo que acha que sabe exatamente como eu devo ser e quem eu devo ser. - Cammie tomou um gole longo e dramático. Podia sentir os olhos deSusan nela. - Ah, que bom. Nada faz me sentir assim. Tem certeza de que não quer?-Tenho.- Você tem razão. Se realmente está descontrolada, quer dizer. Um golinho e vai dançar feito uma gelatina. - Cammie pôs a garrafa de pé novamente.- Não estou descontrolada.- Anna acha que está. Do contrário, por que ela ficaria bancando O clube das babás com você? - Cammie levou a garrafa aos lábios mais uma vez; podia sentir o desejo de Susan enquanto o líquido causticante descia pela garganta. - Hmmm. Nada me acalma como a Flagman, sabia? Faz as outras parecerem água.Susan não respondeu, mas Cammie podia ver que ela estava trincando os dentes enquanto usava o secador de cabelo.- Mas olha só - prosseguiu Cammie. - Eu entendo totalmente. Acho que a Anna está certa. Você é essa mané descontrolada que nunca mais vai poder beber. Parece umasentença de morte, mas você sabe o que é melhor pra você.- Quando foi que eu disse que não ia beber nunca mais?Cammie deu de ombros.- Já passei pelo que você está passando. Para mim, a única maneira de derrotar o medo é fazer o que me assusta e provar que posso lidar com isso. Mas acho que você é diferente.Susan olhou para ela.- Que besteira.- Prove, então. Mané. - Cammie passou a vodca para Susan.Por um bom tempo Susan ficou olhando a garrafa como se fosse a caixa de Pandora. Cammie podia sentir que ela estava vacilando.- Por que eu deveria? - perguntou Susan, os olhos na garrafa aberta.- Para provar que ela não tem poder sobre você. Para provar que você não é a mané gorda que sua irmã acha que é.Outro longo intervalo, depois Susan pegou a garrafa das mãos de Cammie.- Sabe de uma coisa: minha irmã tem razão sobre você. Você é mesmo uma piranha.Elas se encararam. Por um momento Cammie pensou que Susan ia largar a vodca no chão do vestiário. Mas, em vez disso, Susan ergueu a garrafa até a boca e tomou umlongo gole.Bingo.

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