O ESTÁGIO PERFEITO"O teste para saber se uma inteligência é de primeira é a sua capacidade de sustentar mentalmente e a um só tempo duas idéias contrárias e ainda manter a capacidade de funcionar"Anna releu a frase da famosa série de ensaios intitulada O colapso, de F. Scott Fitzgerald, talvez pela décima vez. A sra. Breckner permitira que ela passasse a aula de inglês na biblioteca para que pudesse trabalhar no projeto de Gatsby.As palavras eram cativantes - Anna sabia que podia ser o ponto de partida para o curta-metragem... Mas ela ainda não sabia exatamente como seriam traduzidas para a tela. Anna deduziu que Fitzgerald estava se referindo às dualidades de sua própria vida aplicadas por ele a Jay Gatsby - o amor e o ódio pelo dinheiro, a atração pela vida dos muito ricos e a repulsa à hipocrisia deles. Fez com que Anna se perguntassesobre si mesma e suas próprias dualidades, mas não de uma forma que tivesse a ver com dinheiro ou estilo de vida. Era mais como idéias contrárias de Ben e Adam e como eles se encaixavam na vida dela. O que não tinha nada a ver com o roteiro que ela devia estar escrevendo. A não ser...E se... o roteiro tratasse de uma garota rica lutando com sua identidade? Por um lado, ela ansiava por uma aventura apaixonada e perigosa - Ben. Mas por outro, ela procurava o conforto de um relacionamento seguro - Adam. A garota ficaria presa entre os dois rapazes. Ela podia trabalhar usando como pano de fundo o spa de Palm Springs como uma forma de revelar o mundo de sua protagonista e ao mesmotempo mostrar as dualidades do culto à preocupação dos ricos consigo mesmos."Gostei da idéia."Anna começou a digitar em seu laptop. Sam tinha lhe dado um monte de scripts de roteiristas famosos de Hollywood - entre eles O sonho de Piper- e um software especial, para que qualquer coisa que ela escrevesse pelo menos parecesse profissional. Nomes de personagens como Alana, Berkeley e Aaron passaram por sua cabeça - ela não tinha idéia do motivo.
Logo estava perdida em sua própria história - Alana em uma festa de Hollywood como a festa a que Anna fora na véspera de Ano-Novo, cortejada primeiro por Berkeley, depois por Aaron, incapaz de decidir com quem ficar.Foi só no toque da última sineta que Anna ergueu os olhos do laptop. Ela salvou o que havia escrito e foi se encontrar com Adam no estacionamento dos alunos, como eles haviam combinado. Se não tivesse compromisso na Apex, ficaria feliz em permanecer na biblioteca e continuar escrevendo.Adam estava tão gracinha, inclinado no Lexus de Anna, esperando por ela. Ela ficou tão tonta com a idéia do roteiro que impetuosamente lhe deu um leve beijo na boca.- É bom te ver também - disse ele, rindo.Enquanto saía do estacionamento na direção da avenida Wilshire, Anna transbordava de idéias para o roteiro. Parecia tão bom ficar entusiasmada novamente com alguma coisa que não envolvesse homens - exceto no papel, é claro.- Sei que é só um curta - disse Anna enquanto ia para a avenida Westwood. - Mas é empolgante pensar que eu realmente vou conseguir ver isso filmado. Sam disse que agente pode usar a ilha de edição do pai dela.- Bacana. Mas acho que isso significa que não vamos a San Diego nesse fim de semana.- Você devia ir ao deserto - disse Anna. - Quer dizer, se você quiser. Pode conhecer minha irmã ... ela também vai.- Voce ia me contar sobre ela -lembrou -lhe Adam.Anna assentiu, depois hesitou.- Um cara altamente evoluído como eu sente que tem alguma coisa errada - disse Adam. - Tem a ver com a sua irmã?Anna sabia que era ridículo, mas não conseguia resolver se abrir.se abrir.- Outra hora eu te conto - disse ela alegremente. Depois abriu o console central entre seu banco e o de Adam; estava cheio de CDs. Quando viu que o pai dela alugou o Lexus para Anna, Django trouxe um sortimento eclético de música.Anna nunca tinha ouvido falar na maioria dos artistas. Ela apontou para os CDs. - Escolhe um. Bem alto. Adam ergueu um CD.- Coldplay. Vamos ver.
Ele colocou o CD no aparelho; uma balada de dar nó nas tripas encheu a cabeça e ocarro de Anna. Ela disse a ele que era ótimo para afogar seus pensamentos confusos.Minutos depois eles estacionaram na garagem subterrânea da esquina da Westwood com a Le Conte, embaixo do prédio que sediava os escritórios da Apex. Um dos onipresentes manobristas da cidade pegou o carro dela, e Anna eAdam entraramno elevador que levava ao saguão principal, que era enorme. As janelas iam do chão ao teto e plantas altas cercavam todo o espaço. No meio do teto estava pendurada uma imensa tela Liechtenstein e todos os móveis eram cromados. Ela se sentiu no set de um filme futurista da década de 1960. Anna se apresentou à segurança e recebeu um crachá de visitante, que ela prontamente enfiou no bolso.- Olha, conheço esse bairro. Vou tomar um café na Jerry's Deli. Fica ali na esquina. Me encontra lá quando acabar - propôs Adam.- Tenho certeza de que existe uma recepção onde você pode esperar.- Não. Você tem que subir sozinha. Boa sorte.- Obrigada. - Anna pegou o elevador para o décimo segundo andar, onde a porta se abriu para um vestíbulo espaçoso que ainda cheirava a tinta fresca. Uma jovem espantosamente bonita com cabelo preto curto e olhos verdes estava sentada com headphones numa enorme mesa circular.- Boa tarde, Apex, um momento, por favor. Boa tarde, Apex... Vou transferir. Boa tarde, Apex, um momento, por favor. - Depois, deixando os telefones tocarem por alguns minutos, a garota olhou para Anna. - Sim?- Sou Anna Percy. Tenho hora marcada com Margaret Cunningham às três.A garota apertou um botão no console e falou no headset brevemente antes de se virar novamente para Anna.- Ela já vem. Posso lhe servir alguma coisa? Café? Uma Coca? Água mineral?- Não, obrigada. - Anna se sentou em um sofá baixo de couro cinza e olhou para as publicações numa mesa de canto: Variety, Hollywood Reportere Publishers Weekly. Uma revista de viagem atraiu a atenção de Anna.
Na capa havia um hotel em estilo mediterrâneo em uma praia onde hayia muito vento. Só de olhar Anna se sentiu mais relaxada. Ela abriu na página da matéria de capa. O Montecito Inn. Em Santa Barbara, a mais ou menos uma hora e meia de Los Angeles. Construído por Charlie Chaplin para acomodar os amigos em visita. Parecia tão tranqüilo, tão sereno. Anna podia se imaginar andando pela praia, os jeans arregaçados nas canelas, ouvindo o mar.Para uma garota da cidade grande, ela gostava incomumente de lugares nada parecidos com a cidade grande.- Anna Percy? - Uma asiática baixinha num terno Armani procurava por ela.- Sim. - Anna se levantou.- Sou Wei Ling Feinberg, assistente de Margaret. - Ela apertou a mão de Anna. - Teve algum problema para nos encontrar?- Não, nenhum.- Que bom. Quer um café? Uma Coca? Água mineral?- Anna declinou. - Bem, venha comigo - instruiu Wei Li ng. -Ainda está um mar de caixas por aqui, então cuidado onde pisa.Anna seguiu a assistente por portas duplas e por um longo corredor, passando por uma sala de reuniões envidraçada com vista para as montanhas de Santa Monica. Enquanto andavam, ela pôde ouvir fragmentos de conversas ao telefone - a maioria deles extremamente profanos - de dentro das várias salas."Aqueles imbecis foderam com Al e Miles em Hysteria, entãoagora podem enganar, eu tenho boa memória, Bob..." "Diga ao babaca do seu chefe que é melhor ele atender a porcaria do meu telefonema, ou você nunca vai trabalharnessa cidade de novo." "E daí que sua peça esteja em pré-estréia? Eles ofereceram 250 para ela melhorar o roteiro e ela nem precisou fazer um trabalho muito bom."A sala de Margaret ficava no final do corredor. Dava para oeste, para Brentwood, Santa Monica, e para o mar depois dela. Embora alguns trabalhadores estivessem instalando um carpete com padrão navajo, Margaret estava placidamente sentada atrás de sua mesa de mármore e aço. Quando viu Alma, levantou-se graciosamente e veio até a porta.
- Anna, vejo que você achou o hospício. Wei Ling te ofereceu alguma coisa?- Sim, obrigada. - Anna se virou para a assistente, mas ela já havia desaparecido.- Olha a frente! - Dois trabalhadores estavam puxando um enorme pôster emoldurado de Um estranho no ninho através da porta; Margaret e Anna tiveram de se afastar delado para que eles passassem.Margaret suspirou.- Por que não vamos para a sala de reuniões? Acho que é o único lugar tranqüilo por aqui.Elas voltaram pelo caminho que Anna havia feito - Margaret parando em algumas salas para apresentar Anna a vários funcionários. Por fim, chegaram à sala de reuniões. Podia acomodar confortavelmente vinte pessoas em uma longa mesa cercada de cadeiras de couro cor manteiga com encosto alto. Anna passou os olhos pela parede de vidro do chão ao teto: a sala tinha a mesma vista do escritório deMargaret. Mas, olhando para baixo, ela podia ver apenas a borda do Cemitério Nacional de Los Angeles, com suas filas incontáveis de lápides de soldados reluzindo brancas contra a grama verde.Margaret fechou a porta e o vozerio dos escritórios da Apex transformou-se numa relativa tranqüilidade.- Por favor. - Margaret sentou -se numa cadeira grande à cabeceira da mesa e gesticulou para que Anna se sentasse no lugar à direita dela. - Então, Anna. Você sabe usar e-mail e máquina de xerox, não é?Anna sorriu.-Sim.Margaret tocou o braço dela.- Vamos tentar não te sobrecarregar com muito trabalho maçante. Francamente, com sua aparência e sua formação, podemos fazer melhor uso de você lá fora. - Ela gesticulou para a vidraça. - E eu garanto que será muito mais divertido. Está dentro?- Claro que sim - disse Anna entusiasmada.- E quanto a ler roteiros e livros? Interessada em cobertura de texto?- Desculpe, não sei o que é isso.Margaret riu.- Deixe-me informá-la de um segredo não-tão-grande de Hollywood. Nesta cidade, nenhum dos grandes executivos lê. Eles fazem com que seus assistentes mais novos leiam livros e roteiros.. e escrevam resumos para eles.
- Mas como eles podem saber se é bom ou não? - perguntou Anna. - Quer dizer, o texto é o que mais importa, não é?- Infelizmente, um monte de produtores não tem os escritores em alta conta na cadeia alimentar - disse Margaret- E esse é um dos motivos para que façam tantos filmes ruins. Mas aqui na Apex nós temos um grande respeito pela palavra escrita.Anna assentiu. Parecia interessante. E talvez a ajudasse com sua própria redação.- Maravilhoso. Bem, temos um armário cheio de roteiros e provas de prelo e cinqüenta gavetas de arquivo cheias de resumos de cobertura onde você pode aprender. Sirva-se. Se tirar alguma coisa, coloque de volta depois. De qualquer forma, sou uma mulher tolerante e somos uma agência tolerante. Um de meus clientes, um dramaturgo de Nova York, acaba de ser contratado, a partir do pitch, para escrever um roteiro para a Touchstone.- Pitch? - perguntou Anna.- Desculpe, é outro termo de arte. Ele teve uma idéia que achamos vendável, então agendamos algumas reuniões para ele com grandes estúdios. A Paramount não quis,mas isso não foi uma surpresa. A Warner rejeitou e isso me surpreendeu. Mas a Touchstone Pictures mordeu a isca. De qualquer forma, consegui um acordo fabuloso para ele, entre seis e sete dígitos. Ele voltou a Manhattan para comprar um apartamento e está vindo para cá no sábado. Os Steinberg vão dar uma baita festa nas colinas no mesmo dia. Gostaríamos que você o acompanhasse lá.O nome Steinberg não significava nada para Anna, mas ela concluiu que podia pesquisar. Ainda assim, ficou surpresa com a sugestão de Margaret.- Ficaria feliz em ir. Mas não devia ser alguém com mais experiência?Margaret acenou com repúdio.- Ele é um rapaz de 21 anos com a maturidade de umaberinjela, mas também é danado de inteligente. Acredite em mim, Brock ficará encantado em ver você. Anna se surpreendeu. Brock era um nome muito incomum. Seria possível que ...?- Margaret, está falando de Brock Franklin?- Estou, exatamente.Anna riu.- Eu o conheço.
- Ele foi para o Trinity, onde eu e minha irmã, Susan, estudamos. Ele era veterano quando Susan era caloura. Acho que talvez eles tenham saído uma ou duas vezes.- Bom, isso é incrível, não é? - admirou-se Margaret. - Sem dúvida, eu escolhi a estagiária perfeita. Ainda não tenho detalhes sobre a hora e o local, mas assim que eusouber...A porta da sala de reuniões se abriu e entrou um homem alto e de meia-idade com cabelos alourados e um bronzeado de surfista.- Porra, Margaret, precisamos de você agora - disse ele com veemência. - A Artisan está tentando foder a gente na porra do acordo. De novo.- Tudo bem, eu já vou. Clark, essa é nossa nova estagiária, Anna Percy. Anna, este é Clark. Ela...- Porra da Artisan - o homem interrompeu-a. - Uma porra de sucesso e acham que são Jack Warner. É agora ou nunca, Margaret. - Ele se virou, batendo a porta ao sair.- As boas maneiras não são o forte dele - disse Margaret como que se desculpando. - Mas ele tem clientes antigos. - Ela se levantou. - Desculpe por ter que interromper tão cedo.Anna se levantou também.- Obrigada pela atenção. Estou ansiosa para trabalhar aqui.- Que amável - Ela segurou a porta para Anna. - Certifique- se de pedir a Tamara na recepção para te validar. Manterei contato.Margaret trocou um aperto de mãos com Anna. Anna não entendeu a última parte sobre Tamara e validação, então simplesmente voltou aos elevadores e ao térreo. Quando as portas se abriram, ela se surpreendeu ao ver Adam parado ao lado da mesa da segurança, lendo a seção de esportes do Los Angeles Times.- Oi - disse ele. - O Jerry's estava fechado ... algum filme da semana está sendo rodado ali. Então eu voltei. Não queria que ficasse perdida.Anna sorriu.- Quanta consideração.- Não demorou muito - disse ele, dobrando o jornal e colocando-o debaixo do braço.- Não, mas acho que vai ser ótimo. - Eles foram para o elevador que levava ao estacionamento. - Vou levar Brock Franklin numa festa no sábado.
- Eu devia saber quem ele é?- Não, na verdade, não. Ele escreveu uma peça de sucesso sobre uma garotada rica, imatura e grossa do Upper East Side e ganhou um milhão de dólares com ela, evidentemente.- Anna riu. - Não que ele precise de outro milhão de dólares.- Como você saberia disso?- Minha irmã e eu freqüentamos a mesma escola que ele. Já ouviu falar da Franklin Mint? É da família.- Bom, que conveniente. O que mais?O elevador chegou e eles entraram.- Conheci um dos sócios da Margaret - continuou Anna. - Bom, conhecer é a palavra errada. Ficamos na mesma sala por um tempinho, embora ele nem tenha olhado para mim. E a palavra preferida dele é porra. Clark qualquer coisa,acho que era o nome dele. Depois alguém chamado Tamara tinha que me validar, sei lá o que isso significa.A porta do elevador se abriu no andar da garagem.- Opa, rebobina - sugeriu Adam. - Clark Sheppard?- Não sei. Talvez. - Anna encontrou o ticket do estacionamento e deu ao manobrista. Ele disse a ela que eram dez dólares e ela pagou em seguida. - Acho que sim.- Cabelo louro, bronzeado, alto?- É - disse Anna. - Por quê?- Sheppard - repetiu Adam. - Esse sobrenome não te lembra alguma coisa?Ela teve que pensar por um minuto. E depois, de repente, ela entendeu.- Ah, merda.- Ah, é. Ele é o pai da Cammie.O manobrista trouxe o carro de Anna e eles entraram.- Bom, espero nunca ter que trabalhar especificamente com ele - disse Anna.- Bom, pelo que eu sei, todo mundo trabalha para ele. Ele é esse tipo de cara.- Acho que vou descobrir - disse Anna. - E a parte sobre validar com a Tamara?- É a parte sobre você economizar suas dez pratas. 'Tamara provavelmente é a recepcionista. Validar significa carimbar seu ticket de estacionamento para que você estaione de graça.- Ufa. Eu estava preocupada que significasse validar meu valor pessoal- acrescentou Anna com uma careta.Adam colocou novamente o Coldplay eAnna voltou para a avenida Wilshire.Então o pai de Cammie era um dos sócios na agência onde ela ia estagiar. Isso a fez pensar na filha dele e em seu suposto interesse numa amizade com a Susan.- Adam, se importa se eu der uma paradinha no Beverly Hills Hotel? No caminho de volta?- Não acho que esteja me convidando para pegar um quarto e violar você.- É meio cedo para isso.- Aí, um cara pode sonhar.- Minha irmã está hospedada lá. Só queria parar e dar um alô.- Tá, claro - disse Adam tranqüilamente, mas havia uma pergunta nos olhos dele.- É...- Anna parou. Mas ela sabia que estava sendo ridícula. Os problemas de Susan não eram nenhum segredo de Estado. E daí que fosse informação particular da família? "Eu não sou a minha mãe", Anna lembrou a si mesma.- Minha irmã, Susan, teve uns problemas ultimamente. Com álcool.- Bem-vinda a Los Angeles ... ela vai se adaptar bem aqui.- Mas Cammie e Dee são tão chegadas numa balada...Adam assentiu.- Entendo o que quer dizer.- Então tem algum problema para você se...- Tudo bem - disse Adam. - Olha, talvez sua irmã queira conhecer o Bowser. Mas devo te avisar, ele é cachorro de uma mulher só. E o coração dele já pertence a você.Mas quando eles chegaram ao hotel, Susan não estava no quarto e o manobrista disse que o carro dela não estava no estacionamento. Anna tentou se convencer de que não se importava. Ela ficou algum tempo com Adam, levou o cachorropara passear no canyon e depois foi para casa trabalhar no roteiro. Talvez ela até o mandasse por e-mail para Sam fazer observações. Susan podia cuidar dela mesma.Talvez.
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