EU-EU-EU-RECLAMA-RECLAMA-RECLAMAO V não tinha placa, mas Sam sabia onde encontrar a estrada privativa que levava até a entrada. Luzinhas brancas brilhavam nos cactos junto às laterais da entrada de cascalho. Era o primeiro sinal de civilização. Depois elas fizeram uma curva fechada e encostaram numa guarita. Um homem corpulento de uniforme cáqui saiu. Não havia nada ali que identificasse o spa Veronique. Na verdade, Anna pensou que parecia mais a entrada de um retiro de uma milícia de direita.- Boa noite, senhoras - disse ele. - Nome, por favor?- Sam Sharpe - disse Sam a ele.- Um momento, por favor, srta. Sharpe. - O homem de cáqui voltou à guarita e digitou furiosamente em um computador, depois saiu novamente. - Está sendo aguardada,srta. Sharpe.Ele apertou um botão em seu beeper. De repente a estrada que passava pela guarita foi iluminada de um emocionante branco e laranja, e um portão que bloqueava o caminho se abriu automaticamente. Dois minutos depois, elas chegavam a uma grande construção sobre colunas que era meio parecida com a Casa Branca. Três belos homens vestindo camisas de golfe cáqui e azul-claras entraram em ação, abrindo portas e pegando a bagagem na mala do Jeep.- Srta. Sharpe, srta. Percy e srta. Percy, bem-vindas ao Veronique - disse o mais velho deles, que tinha bochechas proeminentes. - Levaremos sua bagagem para as suítes. Srta. Sharpe, aqui estão seus cartões.O empregado passou a Sam os cartões para os quartos.- Não tem registro? - perguntou Anna a Sam.- O V tem um arquivo de todos os hóspedes e prepara os empregados. O registro é feito por telefone. E não dê gorjeta.É cobrada na conta.Anna se espreguiçou, rígida da longa viagem, maravilhada com o frio que fazia - a temperatura não podia estar acima de sete graus. Depois ela se lembrou de que estavam no deserto em pleno inverno.- Muito bem, tudo pronto - prometeu o empregado.- Entrem e se aqueçam. E não se preocupem, a previsão do tempo para amanhã é de 21 graus.
As três garotas entraram no saguão espaçoso. O ar estava quente, as luzes, baixas. As cores na mesa de centro de orquídea selvagem captavam o lavanda claro e o rosa do piso de mármore e calcário. Obras de arte inestimáveis enfeitavam a.sparedes - Anna reconheceu um Monet, um Ticiano e um El Greco. Em vez de um balcão de registro, havia um par de mesas com placas discretas que simplesmente diziam "Assistência aos Hóspedes". Atrás da mesa, havia um enorme quadro a óleo de uma mulher que tinha de ser a própria Veronique. Tinha uma forte semelhança com a ex-mulher de Donald Trump.Susan passou o braço pelo de Anna enquanto elas atravessavam o saguão em direção a uma porta que levava aos quartos.- Ah, a vida dos jovens ricos e ociosos. Não temos essa sorte.- Na verdade temos - respondeu Anna.- Eu sei disso. Sei mesmo. - Susan apertou a mão de Anna. - Quando eu entrar numa de eu-eu-eu-reclama-reclama-reclama, bata na minha cara, está bem?- E você faça o mesmo comigo - disse Anna, abraçando a irmã. - Vai ser divertido, Sooz. Não passamos um fim de semana juntas há um tempão.- Srta. Sharpe? - Uma voz com sotaque escandinavo fez com que Anna se virasse. Uma loura espetacular num simples vestido azul perfeitamente bem cortado vinha nadireção delas.- Ingrid! - exclamou Sam. - Como você está?- Feliz em revê-la, srta. Sharpe - disse ela a Sam. Só o crachá que dizia "Ingrid Svenson" e um V simples monogramado indicavam que a jovem trabalhava no spa. - Desculpe não tê-la recebido ao chegar. O jantar será servido até as dez no Salão Versalhes, ou podem comer no quarto, se preferirem. Srta. Sharpe, está na suíte Marilyn, srta. Anna Percy, na suíte Bette, e srta. Susan Percy, na suíte Rita. - Ela gesticulou para o outro lado do saguão. - Seus quartos ficam depois do pátio e da piscina, passando por estas portas duplas. Uma caminhada curta. Ou podemos ligar para Paolo para que traga o carro de golfe aqui.Antes que uma das meninas pudesse responder, uma voz ele mulher gritou: "Ei, vocês!"
Cammie Sheppard.Anna ferveu. Que diabos Cammie Sheppard estava fazendo aqui? Ela percebeu que Sam não pareceu nada surpresa. Cammie beijou Sam e Susan sem nem encostar as bochechas. Anna, ela ignorou.- Que ótimo, Susan - exclamou Cammie. - Eu não sabia que você vinha.- Não sabia que você estaria aqui também - admitiu Susan.Cammie apontou um dedo brincalhão para Sam.- Que menina má. Sabe que deve me contar tudo.- Por acaso Sam também não me contou isso - observou Anna, a voz fria.Os olhos de Cammie dardejaram para Anna. Ela bocejou.- Ah. Oi, Anna.- Quando você planejou tudo isso? - perguntou Anna a Sam num sussurro.- Cammie, Dee e eu marcamos semanas atrás - admitiu Sam.- Você não me contou.- Elas não vão atrapalhar em nada. A gente veio a trabalho, elas vieram por prazer.- Dee está aqui? - perguntou Anna.Enquanto as portas duplas se abriram, a voz petulante de Dee respondeu à pergunta de Anna.- Uau, oi, meninas! Vai ser muito divertido! Em que quartos estão? Querem jantar?A cabeça de Anna começou a latejar.- Preciso desfazer as malas - disse ela. - E precisamos ver o roteiro, Sam.- Não precisa ser neste exato momento, precisa? - perguntou Sam.- Anna - suspirou Cammie. - Não dá pra ver que estamos nos esforçando? Esse é nosso jeitinho de dizer que gostamos de ficar com você.- Eu realmente não estou com muita fome, então vejo vocês todas depois. Susan? Quer vir comigo?Susan deu de ombros.- Sinceramente? Estou faminta.- Vamos jantar no pátio - sugeriu Sam. - Aquele garçom gostosão da Dinamarca ainda está aqui? Qual é o nome dele mesmo?- Ulrik - respondeu Cammie. - Está aqui, sim, e ele vive para servir. Dia e noite - acrescentou ela como quem sabe das coisas. - Está trabalhando nesse momento, naverdade.Susan virou-se para Anna.- Importa-se?Sim, Anna queria dizer. Mas parecia tão ... fútil.- Faça o que quiser. Está tudo bem.- Vamos ver o roteiro depois, Anna - garantiu-lhe Sam.
- Tudo bem. Acho que é melhor assim. Vou ter um tempo a mais para reescrever umas coisas - acrescentou Anna de forma pouco convincente, uma vez que não tinhacerteza de que o que precisava fazer era reescrever. Ela pediu Iicença e pegou o curto caminho que passava pela piscina até chegar a um prédio de dois andares construído em tons de ('erra claro com uma fachada de adobe. A dúzia de quartosno prédio estava listada em ordem alfabética em uma placa de madeira; Anna viu que o dela ficava no primeiro andar, mais perto das montanhas. Ela passou o cartão de acesso na máquina de autorização instalada na porta, depois esperou que a luz verde acendesse para que pudesse entrar.A sala de estar era toda branca: tapete felpudo, sofá de veludo e poltrona. Um vaso de rosas brancas estava no meio da mesa de centro. Ao lado dele, havia uma tigela branca cheia de frutas frescas. Anna foi até o quarto. Em cima da ama branca de dossel, estava pendurado um quadro de Bette Davis usando um sarongue branco.Anna foi ao banheiro, também todo branco. Havia uma banheira funda o bastante para nadar e larga o suficiente para quatro, e um vaso de cristal com pétalas de rosa para colocar na água, se ela quisesse. No toucador de mármore branco, uma gama de miniaturas de produtos de beleza, perfumes e óleos, xampus e condicionadores, cada um deles em um frasco branco com um V dourado. Um bilhete manuscritodirigido a Anna e assinado por Ingrid explicava que eram cortesia do Veronique e que, é claro, todos estavam disponíveis para compra na loja de presentes do spa. Ou Anna podia encomendar pela TV interativa do quarto.Anna lavou o rosto com a Emulsão Brilho Suave, cortesia da Veronique. Tinha cheiro de petúnia e almíscar - enjoativo demais para o gosto de Anna. Ao lado da cama, havia uma pasta de couro branco com o familiar monograma em V. Anna abriu-a; continha uma descrição detalhada dos intermináveis serviços que o Veronique oferecia aos clientes.
Ela passou para a seção de massagem - trinta segundos na presença de Cammie e Dee a haviam deixado tensa. Uma massagem parecia ótimo. Havia uma hidromassagem marinha mineral. Massagem tailandesa. Massagem esportiva comóleo de cedro. Massagem de rocha vulcânica quente. Massagem de ilangue-ilangue a quatro mãos. Quatro mãos? Anna desfez as malas e sentou-se no sofá para pensar num título para seu roteiro. Exatamente aí ouviu uma discreta batida na porta. Quando Anna a abriu, Dee estava parada ali, segurando uma garrafa de champanhe e duas taças.- Posso entrar? - perguntou ela.A boa educação venceu novamente, e foi por isso que Anna concordou.Dee entrou e olhou em volta.- Vau, que lindo. Estou no Madonna. O Madonna é muito colorido. Mas o Bette Davis é tão calmante. Meio virginal. Sabe como é, todo branco. Não que Bette Davis fosseuma virgem. Quer dizer, ela foi casada e tudo.- Eu não sei muita coisa sobre ela - disse Anna, incapaz de entender por que Dee estava lhe fazendo uma visita. Dee gesticulou para o sofá.- Importa-se?- Alguns minutos, tudo bem - disse Anna. - Estou meio cansada. E preciso trabalhar no meu ... - Ela gesticulou para o roteiro na mesa de centro.- Conheço um herborista que pode dizer por que você está cansada só de lavar seu cabelo - disse Dee enquanto colocava a garrafa e as taças na mesa de centro. - E aí, estou aqui tipo com uma proposta de paz.- Não estamos em guerra, Dee.- É, mas... - Dee afastou as mechas desgrenhadas da testa. - Sam não te contou que a gente vinha aqui, né?Anna foi se sentar na poltrona.-É.- A gente sempre vem aqui depois das férias. Sabe como é, meio que uma desintoxicação. Ah, por falar em desintoxicar, eu soube que a sua irmã acaba de sair da reabilitação. Isso é bom.A cabeça de Anna começou a latejar novamente.- Eu não quero discutir. ..- Não, tem razão, desculpe - disse Dee rapidamente.- Sabia que a Cammie fingiu que estava na reabilitação também para que sua irmã se sentisse melhor? Não é gentil?
Anna não tinha idéia do que Dee sabia sobre a Susan. Não que ela estivesse surpresa. Por outro lado, conhecendo a Dee, ela podia estar inventando tudo com a mesma facilidade com que dizia a verdade.- Duvido que Cammie tenha feito alguma coisa gentil na vida, Dee.- No fundo, ela é muito legal - insistiu Dee. - Mas depois que a mãe dela morreu, ela ficou muito dura por fora. Mas onde é que eu estava mesmo? Eu meio que queria medesculpar. Porque apareci assim, sem avisar.- Não é culpa sua. Sam devia ter me contado.- É. Ela sabe que você odeia a gente. Eu sei que você disse que não, mas não admitir sua raiva é tóxico para o corpo, então eu queria que você simplesmente, sabe como é,dissesse isso. Mas acho que começamos com o pé esquerdo. Especialmente agora que você e Ben são parte do passado. E foi por isso que achei que a gente podia fazer um brinde. Pelo recomeço.- Não devia ter cuidado com a bebida, Dee? - perguntou Anna incisivamente.Ah, quer dizer. .. - Dee bateu na barriga. Ela ergueu a garrafa. - Cidra com gás. Sem álcool. - Ela abriu a garrafa, serviu as taças pela metade e passou uma para Anna. - Auma nova amizade.Anna fez um gesto de brindar, depois tomou um gole da cidra.- Então... foi, legal você ter passado aqui. Mas tenho certeza de que as outras estão sentindo a sua falta.Se tivesse lido o Grande Livro É assim que fazemos, edição especial para os bem-nascidos da costa leste, Dee saberia que "Tenho certeza de que as outras estão sentindo a sua falta" era um código para "Por favor, saia daqui".Infelizmente, Dee não era tão bem informada.Ela se recostou nas almofadas do sofá.- Não estou mais com fome. Fiz uma drenagem linfática há uma hora e parece errado comer depois disso. Sabe de uma coisa, você devia pensar em fazer uma sessão de renascimento comigo amanhã. É tão assombroso. Você entra nua na piscina aquecida...- Estarei ocupada fazendo o filme com Sam.O lábio inferior de Dee caiu.- Ah. Tudo bem. Só pensei que talvez pudéssemos ser amigas.
- Talvez a gente possa, Dee. Vai levar tempo.Dee assentiu solenemente.- Meu Deus. Como é ser você?Anna ficou surpresa.- Como?- Quer dizer, você é tão perfeita. Eu fico me perguntando como é ser assim.- Dee, eu não sou perfeita.- É sim. Você deve ter feito alguma coisa realmente grande na vida passada para ter tanta sorte nessa vida. É por isso que Ben está com você e não comigo. Acha que você e Ben estavam juntos na vida passada?- Não tenho a menor idéia.- Pode ser. - Dee bebeu a cidra com gás. - Isso explicaria tudo. É o destino.Anna pôs a taça de champanhe na mesa de centro.- Dee. Se quer ser minha amiga, pode pelo menos ser sincera comigo?- Quer dizer sobre...?- Dee pôs a mão na barriga novamente. Depois desviou os olhos. - Não quero falar disso.- Mas você disse que queria ser minha amiga. - Anna decidiu pressionar. Se tinha que ficar sentada ali com aquela garota bizarra, podia pelo menos tentar esclarecer algumas coisas do quebra-cabeça enlouquecedor. De certa forma, suadecisão sobre Adam e Ben tornava isso mais fácil.- Eu quero.- Ben me disse que nem tem certeza se aconteceu alguma coisa naquela noite.Os olhos de Dee ficaram do tamanho de dois frisbees.- Ele disse isso?- Não é que ele não se importe com seus sentimentos, ele só bebeu demais naquela noite e a memória dele não está clara.Lágrimas encheram os olhos de Dee.- Então não significou nada?Tudo bem, a menos que Ben fosse um completo mentiroso, essa garota estava seriamente biruta.- Talvez você tenha baseado o que aconteceu entre vocês dois numa coisa que na verdade não existiu.Dee piscou rapidamente.- Vocês dois estão apaixonados. Eu sei disso.- Eu não estou apaixonada por ele. Acabou tudo. O que quer que seja esse "tudo".Dee suspirou.- Sua aura está dizendo outra coisa. Bom, só o que tenho que dizer é que, na próxima vida, quero voltar como você. - Ela se levantou e andou lentamente até a porta, a cidra esquecida.Mas que estranho. Será que Dee tinha bebido? Em caso afirmativo, ela precisava parar. E em caso negativo, talvez ela devesse beber alguma coisa. De preferência alguma coisa receitada por um psiquiatra. Quando chegou à porta, Deese virou.- Só diga a ele que o bebê e eu não vamos precisar de ajuda financeira. Mas Ben Júnior ou a pequena Delia definitivamente vão precisar de apoio emocional. - Depoisela fechou a porta atrás de si, deixando Anna encarando a placa que explicava o que fazer em caso de incêndio ou terremoto.Bom, isso protege de desastres naturais, mas o que as pessoas devem fazer numa realidade alternativa? Enquanto preparava um banho quente, a imaginação deAnna tomou conta dela. Ese Dee estivesse dizendo a verdade? E se ela estivesse mesmo carregando um filho de Ben? Anna nunca seria capaz de olhar para aquela criança sem lembrar de Ben e de toda a dor que causou a ela. Que fardo pavorosopara uma criança inocente carregar.Mas enquanto acrescentava espuma de grife ao banho,Anna se obrigou a desprezar aqueles pensamentos horríveis. Depois de se deitar na banheira enorme e espalhar preguiçosamente pétalas de rosa na água, era fácil deixar que os pensamentos vagassem para uma direção diferente. Se havia uma banheira que gritava "banho para dois", era essa. De certa forma, ela já sentia falta de Adam. Sempre se sentia ótima quando estava com ele. Mas isso não era motivo para deixá-lo quando desejava outro cara.Não. Banho para um definitivamente era uma idéia muito melhor.
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